O rosto da Dignidade

"A Opinião" de Nádia Piazza, na Manhã TSF.

Na rua principal de Figueiró dos Vinhos, um dos concelhos afetados pelo incêndio de junho de 2017, apresenta-se de forma despretensiosa uma pequena loja de produtos regionais.

À porta, de avental bem-posto e boné de abas largas, o proprietário convida os transeuntes a visitar o seu comércio de produtos regionais e de charcutaria.

Carlos Guerreiro, 45 anos, natural do Barreiro, no distrito de Setúbal, um dos feridos graves vítima do incêndio de junho que deflagrou em Pedrógão Grande, vitimando 66 pessoas e ferindo gravemente outras tantas.

Carlos Guerreiro não tem expressão. Tem antes dignidade.

No Hospital de Valência, sul de Espanha, esteve internado oito meses, dos quais quatro meses e meio em estado de coma. Sofreu diversas cirurgias, 20 das quais para reconstrução facial e outras tantas ainda o aguardam. Mas nega-se a submeter-se a mais. Está cansado de teimar em parecer quem sabe ser.

De forma desabrida e de uma lucidez estarrecedora, decidiu pôr mãos a obra e cumprir um sonho antigo de empreendedorismo local e testar as suas próprias capacidades físicas e de saúde mental, depois do trauma a que foi sujeito.

Traduzo a sua atitude como confronto perante a vida e a sociedade e um ato de dignidade. Ele confronta e afronta as pessoas com o seu estado, suas marcas, sem vergonha ou embaraço, sem piedade e despido de qualquer autocomiseração.

Não tem que parecer alguém que já foi, pois sabe-se ainda o ser. A máscara é que mudou, mas não a essência. Uma pessoa digna de respeito e trabalhadora, ao invés de uma eterna vítima.

Pedrógão Grande foi alvo da solidariedade de todo o país e além-fronteiras. E também foi notícia e alvo de investigações judiciais de oportunismo, burla, fraude, incompetência na aplicação dos fundos solidários.

Certo é que, há por cá pessoas que, postas à prova, resilientes por fim, de vítimas passaram a fazedores do seu destino.

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