Os donos dos futuros indignados

Daniel Oliveira critica a chuva de indignados perante as declarações e a postura assumidas por Joe Berardo, quando, na última semana, foi inquirido na Assembleia da República.

No espaço de comentário que ocupa semanalmente na TSF, "A Opinião", Daniel Oliveira defendeu que já todo o país sabia quem Joe Berardo era e que, enquanto este teve poder, ninguém o investigou nem a ele nem aos seus negócios.

Abordando a Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos, na qual Berardo foi inquirido, na última semana, o jornalista afirmou que "o país adora chocar-se com o que já sabia".

"Joe Berardo, que era amigo de banqueiros e tratava ministros por 'babe', é um homem com lata. Chegou ao Parlamento e não disfarçou - só mesmo isso o distingue de outros que por lá passaram para falar do que foi e é a banca em Portugal", defendeu o comentador.

"Diz que nada tem de seu, para além de uma garagem. Diz que nada deve, porque as dívidas se perdem no labirinto que ele próprio construiu. Diz que a sua profissão é pedir dinheiro, mas que as garantias que deu não valem nada. E ri-se", constatou Daniel Oliveira, para quem nada disto é uma novidade.

"Não sabiam que o próprio negócio do CCB foi uma vigarice? Que o Estado andou a valorizar [a Joe Berardo] uma coleção em troca de nada, gastando dinheiro, pessoal e espaço? Claro que sabiam", atirou o jornalista. "Agora estão todos a fazerem-se de esquisitos porquê?"

Daniel Oliveira culpa os sucessivos Presidentes da República, que, por várias vezes, fizeram Berardo comendador. E culpa os jornalistas, que não fizeram as perguntas que importavam no momento em que importavam. "O escrutínio da imprensa livre acaba onde começa o dinheiro a sério", declarou o comentador.

"Muitos dos que se mostram indignados continuam a não fazer perguntas difíceis a qualquer empresário, a tratar as vidas de qualquer milionário como uma caminhada para a glória, sem lhes contarem os podres, os truques, e as vítimas que ficaram pelo caminho", apontou, recordando que Berardo era tratado "com sorrisos" pelos jornalistas, que o apelidavam de "empresário polémico e politicamente incorreto".

"Ninguém faz, ninguém fez e ninguém continuará a fazer perguntas, até caírem em desgraça", critica. "O capitalismo nacional não mudou. Berardo é só mais fácil de caçar porque já não manda nada."

Daniel Oliveira apela, por isso, a que, em vez de agora emitir um coro de indignações, se fale dos "vigaristas vivos". E que a esses, sim, lhes "façam perguntas e investiguem as suas empresas".

Texto: Rita Carvalho Pereira

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