Os incendiários da palavra

O verão chegou tarde e aos soluços, mas, à passagem do seu rastilho, já fez as suas vítimas. Na perspetiva de Daniel Oliveira, nem só de chamas vive esta época de fogos, mas também de uma sede incendiária que nasce nas palavras e pode não morrer aí. "Num vídeo retirado de uma reportagem de um canal de televisão, um homem que usava o colete da Proteção Civil tenta, desajeitadamente, ajudar no combate ao fogo. Tropeça e cai", começa por dizer o jornalista.

"Espalhado pelas redes sociais, o vídeo serve para mostrar como os operacionais da Proteção Civil são amadores. Na realidade, o senhor em causa é vereador de uma câmara e tenta apenas ajudar", aponta Daniel Oliveira, que assinala ainda: "Destacou-se, há dois anos, por ter andado a resgatar pessoas isoladas."

O jornalista explica, então, que "a partilha destas imagens, com imediata conclusão e julgamento, é um bom retrato do tempo em que vivemos: não se fazem balanços, está-se no camarote a julgar quem se atreva a ir para o palco". "Com este ambiente, é compreensível que muitos estejam na defensiva."

"Os fogos transformaram-se numa poderosa arma política", critica o cronista.

Nesse sentido, os últimos dias, desde que os incêndios deflagraram, no sábado, têm sido reveladores: "Um fim de semana chegou para perceber o que nos espera. Ainda os fogos não consumiam as florestas há 24 horas e já havia um presidente da câmara a decretar que não se tinha aprendido nada nos últimos dois anos. Ainda não se sabia o que tinha ardido e os jornalistas já pediam balanços a comissões de acompanhamento. Ainda não se sabia a dimensão criminosa destes fogos e já um qualquer arquiteto acusava, na televisão, o ministro de se esconder atrás dos incendiários."

Daniel Oliveira lembra, por isso, que ainda estamos no início de um verão com eleições legislativas no final.

"Os incêndios dão votos, telespetadores, leitores e ouvintes. Os incêndios dão popularidade a quem disser qualquer barbaridade definitiva, enquanto as imagens ainda magoam", lamenta.

Por isso, o jornalista faz questão de destacar a responsabilidade de duas pessoas: Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio. O primeiro, por ter cumprido as recomendações do relatório de 2017 e só visitar a zona dos fogos depois de estes estarem extintos. O segundo, por frisar que só comentaria os incêndios após o trabalho de terreno, caso seja possível efetuar um balanço. "Infelizmente, não falta quem explique ao líder do PSD que a sua seriedade é antónimo de fibra", avalia Daniel Oliveira

"Pois eu acho o oposto. Ser sério é que exige bastante firmeza política." Felizmente - salienta ainda - foi este também o caminho de todos os líderes partidários.

É necessário, de acordo com Daniel Oliveira, ter mais cuidado com as palavras, levadas com o vento para reacender velhas disputas: "Vivemos num tempo de incendiários; não apenas os que pegam fogo à floresta, mas os que disso se aproveitam, sem terem o decoro de esperar pelo tempo certo para cada coisa."

"Em 2017, as responsabilidades foram avaliadas meses depois do sucedido, e isso até levou à demissão de uma ministra. Quando chegarmos ao fim desta época de incêndios, far-se-á o balanço. Até lá, devemos ser severos com quem se atreva a usar o calor do sofrimento para proveito próprio, sejam corporações em guerra, autarcas com sede de protagonismo ou políticos em campanha", acrescenta.

O tempo de sofrimento, nota, é o tempo de sermos e atuarmos como uma comunidade.

*Texto: Catarina Maldonado Vasconcelos

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