Qual é o Estado da Nação?

Os (in)vigilantes da nação

Invigilante: que não vigia ou que não está com atenção. É este o estado do jornalismo em Portugal.

A vigilância (no sentido "watchdog" do termo, mas cão de guarda não soa tão bem em português) é uma componente fundamental do jornalismo, diria mesmo o cerne de uma profissão-missão que se deve pautar pelo escrutínio, de tudo e todos, em nome do serviço público que é a informação, seja prestada por públicos ou privados. Quem queria somente um negócio, devia ter seguido outro ramo. Mas, infelizmente, ramificou-se nas gestões, não raras vezes danosas e frequentemente inimputáveis, da generalidade dos órgãos de informação portugueses.

Na véspera de mais um importante debate sobre o estado da nação, deixo um alerta: os vigilantes já não estão de vigia. E as honrosas exceções só comprovam a regra.

A rapidez corta a reflexão, a ementa do dia asfixia a criatividade desacelerada do tempo, as fontes oficiais são agora orientadas por profissionais que executam com mestria agendas apertadas e arrebanhadas, os clics e pushes não deixam sequer respirar quanto mais pensar, as reportagens são garantidas por produtos patrocinados, apoiados, a convite de, os rabos estão presos a cadeiras, os olhos a parafernália variada que tudo observa sem nada ver e os ouvidos a telefones distantes, que marcam regularmente os mesmos números - homens, brancos, acima dos 40, com sorte -, a experiência é descartada com a certeza dos tempos modernos que ignora a memória, esse tesouro coletivo de que o jornalismo é guardião, em nome da sociedade e do bem comum.

Coletivo: conjunto de indivíduos que formam uma unidade em relação a interesses, sentimentos ou ideais comuns. Esta definição não é só para novos, há muito quem se esqueça dela, à força ou por convicção, todos os dias, há vários anos. E não foi sempre assim. Já te sindicalizaste?, perguntaram-me quando entrei na primeira redação da minha vida. Fi-lo para nunca mais sair. Por princípio, que as pessoas, essas, entram e saem, são agora umas e amanhã outras. O importante é que haja amanhã. E coletivos, que se fosse para trabalhar sozinha tinha escolhido outra via.

Mas o coletivo não está em boa forma. Os e as vigilantes - cada vez mais as, embora, ainda e sempre, com salários mais baixos do que eles, escolhidas para menos cargos de chefia e a desistirem mais de uma vida que não as concilia com a família e consigo próprias - andam por aí aos caídos, mal dormidos e insatisfeitos, dispersos em multitarefas e transformados em paus para toda a obra, agora é texto, logo é áudio, amanhã é vídeo, pelo meio uma publirreportagem, para que me vou chatear?, ou até um anúncio de publicidade, foi só uma vez, ninguém vai reparar, as fronteiras a diluírem-se, o código deontológico a ficar turvo, já não se vê, já mal se vê...

Os vigilantes cedem firmes convicções a troco de tostões, porque, afinal, todos temos contas para pagar ao fim do mês. E podemos exigir-lhes mais? Poder, podemos. Porque ser jornalista não é só ter uma carteira para entrar à borla em museus, é servir um conjunto de obrigações e responsabilidades. É prestar um serviço público. Portanto, podemos. Mas desde que saibamos todos do que falamos. E falamos de quê, afinal? Apresento-vos os/as jornalistas portugueses/as:

- um terço trabalha sem qualquer vínculo e ser freelancer em Portugal está longe de significar independência

- 57.3% ganham menos de mil euros, 11,6% ganham menos de metade disso

- 39,2% já experimentaram o desemprego e 80% destes consideram pouco provável o regresso ao ativo

- 16.5% recorrem a outras atividades paralelas, porque o jornalismo não chega para pagar as contas

- quase dois terços, elas mais do que eles, declaram-se insatisfeitos com os salários que recebem

- muitos consideram-se pouco ou nada autónomos e reconhecem um exercício da profissão restritivamente livre

- 64,2% já pensaram em deixar o jornalismo

O papel dos jornalistas, imprescindível em qualquer sociedade, é hoje exercido em liberdade precária, presa por um vínculo frágil ou um salário baixo e refém do medo das consequências de dizer não a quem nos grita pelo auricular estamos em direto, aguenta mais cinco minutos, mesmo que não haja nada de relevante para dizer, fala com essa pessoa, mesmo que ela não esteja na posse de todas as suas faculdades.

Portanto, temos de pedir responsabilidades também a quem dirige, a quem decide, a quem lidera, a quem representa, a quem gere, a quem consome, a quem procura, a quem partilha, a quem se preocupa, a quem quer melhor jornalismo.

Na última vez que esteve em Portugal, Bob Dylan foi muito criticado: que mal-educado, nem olá, nem adeus, e ainda por cima seguranças a assegurar que os telemóveis não eram utilizados. Não se lhe ouviu um pio que não fosse música. Mas, afinal, para que estávamos ali? Não era pela música? O resto são cantigas, que é como quem diz acessórios. Precisamos é de dylanizar o jornalismo: ir à medula, ao âmago, em prolongados e refletidos diferidos. Precisamos de vigias nas torres, que isto de andarmos adormecidos interessa a muitos, mas não ao tal coletivo.

Está na hora - e já não é cedo - de a sociedade refletir sobre o jornalismo que tem e o que gostaria de ter. Sem tabus nem certezas fechadas, é urgente discutir as condições de trabalho de quem o exerce, a sustentabilidade das empresas que o disseminam, os lucros das multinacionais que vivem à conta dos conteúdos que os primeiros produzem e que as segundas vendem, a formação de profissionais que se querem cidadãos conscientes, a literacia mediática (ou a falta dela) da sociedade no seu conjunto e o papel que o Estado deve ter para garantir o direito a uma informação independente e de qualidade.

Senhores/as deputados/as, senhores/as governantes, não há democracia sem jornalismo, sendo certo que uma nação está em tão mau estado quão mau é o estado do jornalismo que lhe serve de pilar. Um Estado que se quer democrático não pode fazer de conta que não vê ou assobiar para o lado. Pergunto, pois, o que têm a dizer sobre isto? Fico a aguardar, com expectativa, que me respondam. Enquanto isso, informo-vos que dois dos melhores jornalistas que conheço vão deixar de o ser, porque querem viver dias mais felizes. É uma pena e uma perda, mas tenho de reconhecer que o jornalismo os deixou primeiro.

*Sofia Branco é Presidente da Direção do Sindicato dos Jornalistas

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