Os vultos portugueses estão a morrer. Quem são os seus herdeiros?

São pessoas notáveis. Alguns escavaram a nossa identidade dando-lhe novas classificações. Outros contrariaram a fatalidade da história. Quase todos nos apresentaram um itinerário em direção a algum anseio coletivo. São todos monumentos, ainda que só alguns tenham sido esculpidos em pedra. Como figuras históricas, são mira de todo o tipo de subjetividades e dissensos.

Todas as sociedades os têm. Portugal não é exceção.

O século XX produziu figuras portuguesas de destaque que serviram de referência para o povo e as elites. Ditaram modas e costumes. Ajudaram a firmar a nossa identidade e guiaram-nos na ausência de sinais. Permitiram que, por momentos, nos tenhamos posto em bicos de pé. Agustina Bessa-Luís, Vieira da Silva, Torga, Saramago ou Sophia de Mello Breyner esticaram os limites das nossas artes. Álvaro Cunhal e Mário Soares urdiram a liberdade que me permite escrever este texto sem medo. Amália Rodrigues e Eusébio provaram-nos que o sonho não era apenas uma experiência individual. Rever as Conversas Vadias de Agostinho da Silva ou reler as intervenções políticas de Natália Correia são escadarias para um país mais moderno.

São eles os herdeiros da geração da Arte Moderna e do republicanismo da primeira metade do século XX que nos deu de Fernando Pessoa a Almada Negreiros ou de Humberto Delgado a Jorge de Sena. São homens e mulheres, de esquerda e de direita, que atravessaram como uma flecha ciclos e gostos, mantendo-se resilientes e atuantes desde meados do século XX. Não são protagonistas de um episódio só.

Mas todos estão mortos. Todos desapareceram nos últimos 20-30 anos. Resta apenas uma mão cheia dessa colheita, como Eduardo Lourenço ou Ruy de Carvalho, respetivamente com 96 e 92 anos. A morte de Agustina Bessa-Luís representa, por isso, a quase extinção de uma geração que habituamo-nos a escutar.

Dir-nos-ia o bom senso e a evolução que esse grupo de notáveis deixaria herdeiros, outra vaga de vultos que hoje teria mais de 50 anos. Sim, temos a assinatura de Damásio, Lídia, Álvaro Siza, Souto Moura e Lobo Antunes nas capas dos livros ou em edifícios cosmopolitas. Temos casas que celebram o engenho de Maria João Pires e Paula Rego. Temos Guterres em Nova York, Rosa Mota em Seul e Carlos Lopes em Los Angeles.

Mas não temos portugueses na lista dos 100 mais influentes da Times ou na lista da Forbes dos mais poderosos do mundo. Portugal tem cada vez mais figuras públicas e cada vez menos portugueses notáveis, ou cada vez mais portugueses que pensam no interesse do público e menos no interesse público.

É possível argumentar que a ideia de notável é subjetiva, que as revistas de língua inglesa estão desatentas aos nossos talentos domésticos ou que só o distanciamento temporal permitirá identificar todos os vultos nacionais.

Mas também é possível sustentar que, nestes novos contextos de globalização, cada vez mais a heroicidade nacional precisa também de destacar-se globalmente, onde a competição é maior e a peneira é mais apertada. O juiz dos nossos sucessos deixou de sentenciar só em português. Espera-se uma contribuição para a humanidade, não só para a comunidade.

Nestes novos tempos também se expecta que figuras públicas influentes apoiem as causas que nos aperfeiçoariam como país e como sociedade. Mas os nossos modernos notáveis são pouco tendentes a defender causas sociais. Quem são os que dão a cara e o corpo pela igualdade de género? Pela luta contra as mudanças climáticas? Quem arriscaria ir para o cárcere por defender algo em que acredita? Quem diria, como disse Agustina, "os prémios, as coisas gloriosas, dão-me acessos de mau humor, tiram-me a capacidade de protestar, e eu adoro protestar"?

Quiçá faltem referências públicas na sociedade portuguesa, homens e mulheres talhados para o Panteão. A minha geração, que nasceu depois do 25 de Abril, talvez se identifique mais facilmente com os audazes da geração dos nossos avós e bisavós do que com a dos nossos pais. Os últimos 45 anos em Portugal, apesar de todas as possibilidades e ilimitações, renderam mais inventores do que invenções.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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