Opinião

Porque rastejam os atletas na linha da meta?

As imagens de atletas a cambalear ou rastejar nos últimos metros das mais variadas competições tornaram-se famosas pela notoriedade que os media lhes dão, dando lugar a discussões acesas sobre se estes atletas deverão ou não ser impedidos de continuar.

O colapso associado ao exercício (CAE) caracteriza-se por tonturas e sensação de cabeça leve, usualmente após cruzar a linha de meta.

Esta entidade é causada por uma diminuição súbita do aporte sanguíneo cerebral devido, sobretudo, à suspensão súbita da corrida (daí que frequentemente se diga aos atletas para continuarem a andar após a meta), uma vez que a contração muscular dos músculos gémeos durante a corrida é um importante mecanismo de retorno venoso ao coração. Nos casos em que sucede na reta da meta, embora não se encontre cientificamente provado, hipotetizo que se deva a uma diminuição da ativação do sistema nervoso simpático por uma antevisão de conclusão do esforço, que leva a uma diminuição da vasoconstrição periférica e à diminuição do aporte sanguíneo cerebral.

O motivo pelo qual o CAE acontece especificamente em alguns atletas é desconhecido. Trata-se de uma "falha" na resposta vascular que acontece mais frequentemente em ambientes com temperaturas elevadas, como os recentes Campeonatos do Mundo de Trail. Adicionalmente, sabe-se que em laboratório as respostas vasculares em ambiente aquecido se encontram lentificadas. Não existe evidência de associação entre o CAE e estados de desidratação ou de golpe de calor.

Como se manifesta? O atleta inicialmente defende-se, de forma involuntária, com uma marcha com o tronco fletido de forma a aumentar o aporte sanguíneo cerebral, progredindo para o rastejar e culminando no colapso (repondo assim o aporte em falta).

Desta forma, o seu tratamento inicia-se deitando o atleta no chão e elevando imediatamente as pernas de forma a repor o retorno sanguíneo cerebral, com uma avaliação médica imediata.

Embora o CAE seja uma entidade frequente e benigna, qualquer atleta com tonturas, alterações da consciência ou desmaios deverá ser impedido de permanecer em competição, uma vez que estes são também sintomas de uma miríade de patologias com um desfecho menos favorável.

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