Poucochinhos a votar, alguns a ganhar pouco, poucos a ganhar muito e todos perdemos

Seguro. Foi seguro o triunfo do PS. Confortável em relação ao segundo, o PSD, com uma diferença superior a onze pontos percentuais. Pedro Marques e António Costa são vencedores. Mas apenas dois pontos acima do que conseguiu Seguro há cinco anos. Uma subida que é uma espécie de reposição dos rendimentos no país. Existe, mas em poucochinho.

Seguro diz estar Rui Rio na liderança do PSD. "Eu não abandono", garantiu o líder social-democrata, após mais uma derrota sem margem para dúvidas. O PSD, com Rangel à cabeça, perdeu mas não muito. Poucochinho, se comparado o resultado com o obtido em 2014, quando em coligação com o CDS e estimando os resultados então obtidos pela coligação (atribuindo 80% a sociais-democratas e 20% a centristas). Nessa perspetiva, quem perde poucochinho é o partido de Cristas e Melo. Com base na atribuição dos votos da Aliança Portugal, até sobe de 182 mil para quase 205 mil. Mas se pensarmos nos quase 300 mil votos em 2009, o desaire no Largo do Caldas não é nada poucochinho. E falhou o objetivo de aumentar a presença em Bruxelas. Mota (Soares) foi de vela.

A CDU não reclamou vitória. Notícia. Jerónimo de Sousa foi realista na análise dos resultados. A CDU deixa de ter três eurodeputados no Parlamento Europeu e viu-se ultrapassada pelo Bloco de Esquerda. Não é caso para o Centro de Trabalho Vitória mudar de nome, mas não há-de ser poucochinha a azia para os lados da Soeiro Pereira Gomes.

Por poucochinho o Bloco de Esquerda não elegeu um terceiro eurodeputado. Faltavam três mil votos, ou algo próximo disso para levar mais um sociólogo para o PE, Sérgio Aires. José Gusmão vai fazer companhia a Marisa Matias e o partido é um dos vencedores claros da noite. Embora percentualmente abaixo do voto nas legislativas de 2015 (9,74% contra 10,19% na altura), mas muito superior aos 4,93% às europeias em 2014; os bloquistas conseguiram mais de 325 mil votos, tendo ficado em segundo lugar à frente do PSD em quatro freguesias de Lisboa: Marvila, Penha de França, Santa Maria Maior e São Vicente.

Poucochinho poderá ter igualmente faltado ao PAN para eleger um segundo eurodeputado, Bebiana Ribeiro da Cunha. Mas a eleição do cabeça-de-lista Francisco Guerreiro e o quase triplicar de votos em relação às legislativas não deixam de ser notáveis. Até hora bem avançada na noite, o PAN estava a poucochinho de apanhar o CDS. Tal como o Livre de Rui Tavares esteve perto de ultrapassar a Aliança de Sande e Santana. Ambos sem conseguir eleger. O partido das Pessoas, Animais e Natureza é um dos vencedores da noite eleitoral.

Esperavam ler-me sobre os resultados lá fora? Pois bem, é agora. Mas se perdesse a oportunidade dos parágrafos acima, ainda corria o risco de ser o único a não nacionalizar as eleições para o Parlamento Europeu. Como poderia arcar com tamanha responsabilidade? Mas vamos a isto.

Comecemos pelo Reino Unido. O Brexit Party de Nigel Farrage foi o grande vencedor (31,71% dos votos, suplantando a vitória do UKIP com 26,7% em 2014, que agora não foi além de 3,57%). Não param os terramotos entre os Tories: depois da demissão da primeira-ministra, agora o Partido Conservador - que Theresa May (ainda) dirige - não foi além dos 8,71% (contra os 23,31% em 2014 e segundo mias votado); sendo ultrapassado no quarto lugar pelo Green Party (Partido Verde). Mas se, face a 2014, os trabalhistas de Jeremy Corbin desceram dez pontos percentuais, não ultrapassando agora os 14%, a verdade é que os LIb-Dem são claramente também vencedores, com 18,55% dos votos (6,69% em 2014) e a segunda posição.

Tal como no Reino Unido, as forças antieuropeístas têm razões para sorrir em Itália. La Lega (antiga Liga Norte, extrema-direita no poder com o vice primeiro-ministro Matteo Salvini) passa de 6,15% para 29%, uma subida de 23 pontos que é precisamente a descida conjunta dos partidos do centro (o Partido Democrático de Renzi baixou 17 pontos percentuais e a Forza Itália de Silvio Berlusconi caiu 6). O Movimento 5 Estrelas continua a ter os mesmos 21% de apoio popular.

Em Espanha, o Vox entra com três eurodeputados para Bruxelas/Estrasburgo, o PSOE confirma a vitória obtida nas eleições gerais e o Cuidadanos de Albert Rivera passa de pouco mais de 3% para 12%, mais do que triplicando a representação no PE. O PP de Pablo Casado teve mais uma noite para esquecer. Oriol Junqueras e Carlos Puigdemont foram eleitos. Mas um está preso e o outro fugido.

Em França, Marine Le Pen quer dissolver a Assembleia Nacional (onde tem apenas meia dúzia de deputados) e fazer valer o peso que já tem a nível europeu. O Republique En Marche foi derrotado por poucochinho. Mas foi derrotado e Emmanuel Macron não tem dado ares de que saiba perder. Socialistas e centro-direita, em França, praticamente não existem. Quem diria?

Na Alemanha, os Verdes liderados por Ska Keller mais do que dobraram a sua votação (de 10% para 22%), com descida da CDU-CSU e trambolhão dos sociais-democratas (SPD), tendência de crescimento do voto ecológico que se verificou em vários países europeus.

O partido de Juncker perdeu no Luxemburgo, Orban consolidou vitória na Hungria, os conservadores continuam em maioria no Parlamento Europeu e no Conselho, o Syriza foi derrotado na Grécia. Tsipras só pode sorrir (mas muito amarelo), por uma coisa: Varoufakis não foi eleito na Alemanha.

Que Europa queremos como ator global? Que Europa perante Trump, Xi e Putin? Como viver enquanto bloco neste atual quadro global de competição estratégica?

Que Europa queremos perante os desafios dos movimentos migratórios (saberemos de uma vez por todas acolher e pensar o futuro ou iremos fechar, anuindo à ventania identitária do leste e da bota no sul)?

Que Europa perante as correntes europeias anti-Europa? Que Europa perante as alterações climáticas? Que Europa perante as transformações no trabalho com a entrada em força da inteligência artificial na economia e nas nossas vidas?

Que Europa da cultura e da educação queremos? Que mudanças pretendemos fazer ou não na zona euro? Não houve muita discussão sobre isto. Como se não fossem assuntos para europeus.

Com uma abstenção de metade dos 400 milhões de eleitores europeus, mas de mais de 68% em Portugal, houve mais de dez mil (ena, tantos) portugueses no estrangeiro que se deram ao trabalho de ir votar. Dez mil quando fazem parte dos cadernos eleitorais 1,400,000. Poucochinho? Não, é o que temos. Todos perdemos.

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