Quando a vítima mora ao lado

"A Opinião" de Nádia Piazza, na Manhã TSF.

Fevereiro de 2019. O ano mal começou e começou muito mal.

Público: "Violência doméstica. 85% dos casos não resulta em acusação. No caso do duplo homicídio do Seixal, MP abriu inquérito apenas por coação e ameaça."

Jorna I: "2019 trágico. Já morreram mais mulheres em Portugal, proporcionalmente, do que no Brasil. Há uma espécie de terrorismo doméstico no país."

Expresso: "Falhámos-te", referente à menina Lara, de 2 anos, morta pelo próprio pai num caso que está a chocar Portugal.

E na Revista Cristina, em grande destaque, uma mulher brutalizada onde se diz "Isto NÃO é amor".

Não há tema que mais choque uma sociedade do que a morte brutal de uma criança.

Não há tema que mais revolte uma sociedade do que a morte brutal de uma criança à mão de quem deveria ser o seu herói. E, por trás desta tragédia, um drama familiar ignorado e menosprezado pelas instituições. A violência doméstica. O crime público entre quatro paredes que ninguém quer saber.

Nove mulheres perderam as suas vidas em apenas 37 dias do Feliz Ano Novo de 2019!

Pelas minhas contas, e a este ritmo, vamos fechar o ano com cerca de 90 homicídios em contexto de violência doméstica.

Mas o que se está a passar? É reflexo da crise? São ausência de valores e princípios? Ou é algo que se tem desvendado mas que sempre existiu? "Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher", certo? Errado.

As causas podem ser variadas, mas acredito que o problema passa sobretudo por uma visão ainda retrógrada do papel da mulher na sociedade. Diferentemente de um passado muito próximo, elas são hoje muito mais independentes. Infelizes, separam-se, procuram ajuda na família ou nas autoridades, que lhes falham reiteradamente.

A doença do lar é uma doença de desamor, antes de mais.

Portugal é um país melancólico, para não dizer depressivo. Enquanto as mulheres admitem a depressão e recorrem a ajuda médica mais facilmente, os homens recorrem antes ao álcool e a outras substâncias, o que acutila ainda mais os sintomas associados à depressão.

Tratar a violência doméstica enquanto sintoma de uma sociedade doente deve passar primeiro por olhar para a vítima e o seu entorno, mas deve ser também olhar para o agressor. Enquanto criminoso, é certo, mas também enquanto alguém em estado de grave angústia e depressão, a precisar de tratamento.

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