Opinião

Reflexões tristes

A opinião do diplomata e escritor José Cutileiro a propósito do encontro entre Donald Trump, Presidente dos EUA, e Vladimir Putin, Presidente da Rússia.

Escrevo na segunda-feira. No Domingo, o Público recordou-me a libertação de Nelson Mandela em 1990, começo do fim do apartheid; no Sábado, publiquei no Expresso in memoriam de Peter Carrington que morreu na terça-feira passada aos 99 anos e que, em 1982, se demitira de Foreign Secretary (Ministro dos Negócios Estrangeiros) por o seu ministério não se ter apercebido de que a Argentina ia invadir as Falklands: o ministro era ele, a responsabilidade era sua.

Nesta mesma segunda-feira, encontraram-se em Helsínquia Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos e Vladimir Putin, Presidente da Rússia. Vivemos outros tempos: a força interior que amarrou Mandela ao mastro, o ponto de honra que fez Carrington despedir-se, raros em qualquer altura, são praticamente inexistentes na vida política actual. Indo do geral para o particular, estão a anos-luz de distância dos personagens que hoje se encontraram um com o outro na cidade a que os suecos ainda chamam Helsingford.

Putin é o chefe de um estado-máfia, estruturado em rede de ex-funcionários do KGB - como ele próprio - assente em cleptocracia consecutiva à privatização da economia soviética, posta em marcha com as melhores intenções pelo falecido Yegor Gaidar (não foi assassinado mas houve tentativas), aos 32 anos o primeiro primeiro-ministro do Presidente Yeltsin. O entusiasmo era grande mas não se passa de hoje para amanhã de uma dieta de marxismo leninista para uma dieta de Hayek sem dar cabo da saúde. O resultado é país com esperança de vida e liberdade de imprensa menores do que há 25 anos e alcoolismo maior. Não se criou economia que fosse libertando a Rússia da dependência das exportações de gás e petróleo (Helmut Schmidt dizia justamente que a URSS era o Alto Volta sem bombas atómicas; substituindo URSS por Rússia e Alto Volta por Burkina Faso, ainda se aplica). A Rússia não é a China: entregues a si próprios, os russos não criam riqueza, consomem vodka. Politicamente, uma pseudodemocracia oprime os cidadãos, assassinando de vez em quando um ou outro. Bilionário, autocrático e imoral (riqueza e poder roubados ao povo), Putin vem na linha de Estaline e dos czares mais brutais.

Portando-se como anfitrião, que não era, acolheu um Trump subserviente e acomodatício ao ponto de aumentar suspeitas de alguns de que os russos tenham qualquer coisa contra ele. Ignorante, preguiçoso e inepto louvou constantemente o seu anfitrião. Chegou a dizer que a afirmação de Putin de que a Rússia não se tinha metido nas eleições americanas lhe parecia convincente - contra as convicções, provadas e públicas, dos seus próprios serviços de informação e segurança que acompanham o assunto.

Desta vez, a indignação nos Estados Unidos - não há memória de presidente se ter portado tão mal no estrangeiro - brota até de políticos Republicanos. Há mais: sendo Trump e Putin aldrabões públicos e notórios, ouviremos mentiras do que foi dito em tête-à-tête. Salvo se a CIA tiver feito o seu trabalho...

* José Cutileiro publica originalmente este Bloco de Notas no blogue Retrovisor. O autor não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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