Ser Político

Quando entro nos estúdios da TSF sou recebido tão bem que até fico um bocado sem jeito. Não é a primeira vez que acontece, mas penso que sempre sentirei essa alegria e nervoso indisfarçável porque a TSF é a rádio que ouço todos os dias e que cá, ou lá fora me mantém bem-informado sobre o que se passa no País e no estrangeiro, nas matérias culturais, sociais, desportivas e políticas que me interessam. Atenção que ninguém me encomendou nenhum elogio, mas sempre tive a sensação, desde a primeira visita ainda no Edifício em Alcântara (com o microfone gigante cá fora), que ali se passavam, diziam e resolviam coisas importantes.

Como cidadão e músico fui-me divorciando da rádio. Por enjoar a playlist ou o excesso de coboiada; ou porque já não me identificava com a música que se passava; ou porque os programas de autor iam desaparecendo. Só a TSF, que passou pelas mesmos constrangimentos legais que as outras, feitos por despacho de quem não percebia nada de rádio, evitou a separação definitiva e completa de uma coisa que nos mantém humanos: ouvir a telefonia.

Quando desço à cave para tirar as fotos para a minha "coluna" online e, vaidoso, faço a melhor pose entre rocker e "comentador" que consigo de modo a parecer esperto e pertinente; outro lado em mim não consegue evitar pensar não só no que é que eu estou ali a fazer, mas nesta coisa toda de escrever, partilhar, opinar. Na verdade, não tenho necessidade disto. Não o faço por dinheiro, prestígio ou poder, talvez um pouco por vaidade. Os meus "fãs" ou "fãs" de música em geral, arrepiam-se quando os seus "ídolos" (esta dinâmica um pouco senhorial da música é assustadora) expressam as suas opiniões sociais e políticas. Afinal, e até terão razão, já há muita gente a preencher esse lugar, não lhes parecendo inteligente o facto de os deixarmos de entreter e, porque não, de lhes proporcionar as suas melhores memórias e momentos, trocando-lhes as voltas à fantasia pela dura realidade que todos os dias leem nos jornais.

Vários músicos como Roger Waters, Shirley Manson, Juliette Lewis, viram a sua base de seguidores reduzida quando abraçaram causas politicas. Isso também acontece em Portugal, mas de uma forma muito mais discreta porque a maior parte dos nossos artistas, especialmente músicos, não se desejam comprometer. No meu caso, saído da cave da TSF, dei por mim a pensar nisso no caminho até Alcobaça.

Tornei-me "político" por altura da governação de Passos Coelho. Até lá tinha um interesse moderado na politica, votava sempre, a menos que estivesse fora, mas não me metia "nisso". Não conhecia os programas dos partidos, não seguia as suas manobras e sobretudo não assomava em mim nenhuma ideologia que não fosse a de ter uma vida boa e em paz, não só com amigos e família, mas também com os fãs, com os quais pura e simplesmente discutíamos música e literatura, quanto muito.

O governo de Passos Coelho, a forma como, arbitrariamente, a pretexto de uma crise/catástrofe económica, retirou direitos consumados e reiterou a injustiça social, foi como um clique para mim. Li alguns livros para perceber o que era esta crise, qual a "jurisprudência" da mesma, em que países se tinha usado a receita da austeridade e com que efeitos. Desde a criatura da Ilha Jekyll até ao Inside Job, tudo absorvi para entender a contaminação viral e destruidora do crédito malparado. Percebi como famílias e países tombavam, de modo a proteger interesses privados e de como, sem vergonha, se privilegiavam os lucros dos bancos em detrimento da subsistência das pessoas. Foi perante esta crise, face à austeridade autoinfligida do bom aluno que me tornei politico e decidi partilhar algumas das minhas visões acerca de temas que nos dividem.

A par da dedicação e dos instintos musicais coloquei a também a minha dimensão de cidadão em jogo. Já perdi muitos seguidores (Portugal, EUA e Brasil sobretudo), mas sinto, por outro lado, que ganhei outros, porventura não-musicais, mas que partilham as minhas preocupações e, porque não, algumas das convicções. Na pesquisa que fiz por músicos Portugueses que também contribuem com colunas escritas na Imprensa, não encontrei nem o discurso, nem a inquietação que esperava. São sobretudo relatos de experiências musicais e literárias, ou experiências contadas na primeira pessoa que se distanciam da realidade social porque são assuntos mais de "classe", mas que nada dizem sobre o que os músicos pensam sobre este ou aquele tema mais polémico. Também há muito vazio de conteúdo e muito "na boa", sem-sal, mas lá está: o preço do compromisso e do assumir duma posição que os leve a terrenos movediços pesa muito quando se enviam palavras para publicar. Sem juízo de valor.

Muitas vezes quis desistir ou afastar-me deste tipo de escrita. Leva-se muito na cabeça. Mas aprendi que faz parte e que agradar a todos ou separar a música totalmente das outras coisas que faço e de como penso é algo impossível. Dos primeiros argumentos contra as minhas opiniões na TSF é sempre um inevitável: a tua banda é uma merda. Isto a título de exemplo. Mas, bem-feitas as contas, essa escatologia da minha banda em nada afeta o que penso do roubo aos professores, do triunfo absoluto do capitalismo em relação ao Estado Social, das censuras modernas às "porcarias" dos escritores antigos, dos abusos católicos num Estado laico.

Por isso, espero mesmo ter saído bem na fotografia pois estou cá para ficar, sempre grato pela oportunidade de poder contribuir com alguma coisa além da música; destruir algum preconceito, pagando o devido custo por isso, mas sem dar troco a não ser o esclarecimento, ao serviço da rádio que mais gosto, ao lado dos melhores, porque na TSF se cumpre e bem a missão jurada de informar, divulgar, animar e educar o seu fiel e grato auditório. Obrigado.

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