Eleições no Brasil

Sinais de radicalização preocupam no Brasil

Como seria de se esperar de uma disputa em que a rejeição aos dois candidatos maioritários à Presidência é o fator mais notável, a segunda volta das eleições brasileiras está tomada por alta tensão.

Multiplicam-se os relatos de violência entre eleitores, associada primariamente ao favorito na corrida, o deputado federal Jair Bolsonaro (Partido Social Liberal), mas não apenas a ele. A virulência de apoiadores do PT (Partido dos Trabalhadores) de Fernando Haddad, seu opositor, é antiga conhecida dos brasileiros.

Mas Bolsonaro representa algo diferente, e não é por acaso que ele é acusado de fascismo e truculência. Capitão reformado do Exército, o deputado sempre usou a violência retórica como seu símbolo.

Nesta campanha, ele não carrega logótipo, mas sim um gestual que emula a empunhadura de duas armas nas mãos. Isso não causa a repulsa esperada porque a população está assustada: morrem 64 mil brasileiros assassinados todos os anos. Cerca de 30 deputados federais eleitos associados a ele são oriundos de carreiras da segurança pública, como militares, policiais e delegados.

Assim, não causou surpresa a morte de uma pessoa após uma discussão sobre política na qual opinou contra Bolsonaro, ocorrida no dia da primeira volta, domingo passado. A versão do assassino já mudou, mas seu depoimento inicial e de testemunhas sugere um crime por desavença.

Nas redes sociais, não há quase um minuto em que não surja algum relato de intimidação. O problema aqui é outro: não é possível confiar em tudo o que está sendo dito.

Isso dito, a conta está a ser colocada na mesa de Bolsonaro. Não deixa de ser irónico, dado que ele sofreu o problema na pele, ao ser esfaqueado gravemente durante um evento no dia 6 de setembro.

Pressionado, após tergiversar ele fez publicar no Twitter uma admoestação contra elementos violentos que lhe dão apoio. Parece pouco, e tarde.

Esse clima não é nenhuma novidade na política brasileira. A primeira eleição direta para presidente depois da ditadura militar de 1964-85, em 1989, foi marcada por embates de rua entre apoiadores do esquerdista Leonel Brizola e o depois vencedor, o direitista Fernando Collor de Mello.

O que mudou? Primeiro, a polarização é maior. Seja quem for o presidente, terá ao menos 40% da população contra si. Bolsonaro, particularmente, provoca rejeição pessoal grande entre seus adversários e uma espécie de culto pelos aderentes mais fiéis. Boa coisa não sai disso.

Segundo, as redes sociais estão em fase exuberante. Bolsonaro deve boa parte de sua penetração em todo o eleitorado pelo uso contínuo de ferramentas como o aplicativo de mensagens WhatsApp: é barato e eficaz, servindo para distribuir tanto propaganda legítima como mentiras para enganar e confundir.

Tal expediente já era comum, na forma dos chamados robôs de internet, nos anos do PT no poder. Eu mesmo fui vítima de campanhas virtuais quando dirigia a Redação da Folha de S.Paulo em Brasília.

Agora o feitiço parece ter sido melhor empregado pelos adversários do PT. Se a violência recrudescer, é de se perguntar se haverá efeito no hoje franco favoritismo de Bolsonaro: ele tem 58% das intenções de votos válidos, contra 42% de Haddad, segundo sondagem do Instituto de Pesquisas Datafolha.

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