Terra de ninguém

Os ciganos e os ricos são todos primos uns dos outros, dizia a mãe de amiga minha que não era nem rica nem cigana e tinha olho de antropóloga antes de se falar dessas coisas por cá (antes de Professor Leite de Vasconcellos anotar que havia ouvido uma varina dizer "áugua"; do Professor Jorge Dias começar a contar os vizinhos que havia em Rio de Onor). No século XIV, numa feira em Aragão, homem que gritasse alto o seu nome, via-se logo cercado de parentes prontos a defendê-lo de quem o atacasse. Já não é assim em Aragão e não sei se alguma vez assim foi por cá.

Os outros, nós quase todos, perdidas essas enxárcias, vamos pousando um pé aqui, agarrando-nos com uma mão além, encostando o corpo ora a um vulto, ora a outro, descobrindo ao longe o que parece ser curva de caminho, para já a termos perdido antes de lá chegarmos. Terra de ninguém - no man"s land seria mais apropriado, porque os ingleses lutaram na última grande guerra e nós não e em país com tanto governo e tantas proibições acordadas entre nós como o nosso, o termo poderá sugerir que as terras de ninguém foram decididas e delimitadas pela Assembleia da República ou, pior ainda, por assembleias regionais resultantes de regionalização futura destinada a dar mais automóveis com motorista e mais telefones inteligentes a políticos de partidos com "vocação de governo", enquanto os que a não tivessem continuariam a protestar contra a fraqueza cada vez maior da democracia como sistema de governação. Mas no man"s land é em inglês e estas notas são escritas em português ou no que por ele passa entre Tejo e Guadiana (em Chaves ou em Pernambuco não sei como será, nem em Luanda, nem em Inhambane, e tanto faz, que acordos ortográficos são patetices solenes do modo funcionário de viver), para por portugueses serem lidas.

Quase toda a gente agora fala inglês; no meu tempo the few, the happy few que tinham feito o liceu, falavam era francês e faziam gala nisso. Já há cada vez menos: o último que encontrei fora ensinar francês para a Sérvia, mas Belgrado passou recentemente a querer mais a Moscovo do que a Paris e o homem arranjou agora emprego temporário em restaurante de cinco estrelas nos arredores de Lisboa e sobrevive ajudado por turistas franceses que, com rendimentos de remediado, por cá vão fazendo figura de rico - mas sem primos.

Está tudo cada vez mais imprevisível, mesmo para os muitos que falam inglês. E embora almas generosas insistam em lembrar-nos de que nunca houve tão pouca fome no mundo, nem tanta literacia, nem tanta saúde, o português - que digo eu, o europeu - médio constata que o filho viverá pior do que ele e atira as culpas para o primeiro preto ou o primeiro mouro que lhe cruzar o caminho, sem razão e sem qualquer vantagem futura.

É complicado e às vezes julga-se que o mal vai triunfar, mas pode ser que não. Aqui há anos, em sinal de estrada indicando Aldeia de Juzo, alguém garatujara: Hitler tinha razão.

Mas fodeu-se, garatujara depois alguém por baixo.

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