Uma espécie de martírio

É preciso muito cuidado ao discutir o desarmamento dos EUA com um dos seus cidadãos. Muitos dos Norte-Americanos consideram que estas mortes são um preço que se paga como garantia pelo exercício da liberdade de possuir armas para defesa própria contra quem "atenta" perante a sua propriedade ou segurança.

Esta é a leitura e o resultado da blindagem da Segunda Emenda, feita à medida do bang bang colonialista dos finais do século XVIII, início do século XIX e cuja aplicação é a mesma em 2019. O facto de que quase 200 anos depois, as circunstâncias tenham mudado, que se adquiram armas mortíferas em prateleiras de supermercado, que a sua circulação seja massiva e acessível quer em termos de autorização ou preço, não entra para a discussão. Todo esse contexto ao qual se juntam os números de vítimas mortais que impressionando, não chegam para demover, ou promover um debate justo e necessário perante o que, em qualquer outro país democrático, seria uma calamidade nacional.

Os pensamentos e orações, apesar das boas intenções, deixam revelar também o conformismo Norte-Americano perante os massacres. É verdade que muitos milhares de cidadãos gostariam que a lei das armas fosse mais seletiva e rigorosa, mas a sua voz e as suas organizações não se fazem ouvir ao ponto de mudar algo ou de se iniciar o processo de desarmar civis. Não é o tempo deles. Assinale-se que estes Americanos, com maior consciência do que realmente se passa, não pretendem que se acabe de todo com a Segunda Emenda, ou seja, quase ninguém quer abrir mão das pistolas que guarda em casa para se proteger, apenas em caso de...qualquer coisa.

Retirar os fuzis aos cidadãos livres é o equivalente para muitos a uma negação de um dos direitos constitucionais mais importantes para a nação, que os distingue dos demais povos e que lhes confere um poder sobre a vida e a morte que não existe em país algum da Europa. Parece também apenas um pormenor, para os defensores da Segunda Emenda, que não haja outro critério que não a da nacionalidade e idade para adquirir uma arma legalmente. Não podemos também esquecer que segundo um Twitter de Bernard Sanders, já existem cerca de 5 milhões de armas a circular livremente nos EUA, um número superior ao armamento do maior exército do mundo. De forma constante são brancos, com motivações racistas, que planeiam e cometem estes massacres, e não afro-americanos. Muitos deles são crentes no Deus católico e evangélico e não professam a fé Islâmica. Números e evidências tragicamente comprovados esta semana que passou mas que mesmo assim não são tomados em conta. Aposto que nada mudará até ao próximo massacre e ao círculo vicioso de desculpabilização da lei das armas e os inúteis mas simpáticos thoughts and prayers.

Num país empenhado em ser a potência que normaliza o mundo, que o promete proteger contra inimigos imaginários, o farol da liberdade é cego perante o que se passa dentro das suas fronteiras. Só com a cumplicidade insana do seu povo, se consegue a bipolarização suficiente entre direita e esquerda para que as mortes sejam julgadas como uma espécie de martírio, de exercício de uma liberdade letal, numa terra em negação perante o facto de que há muito tempo perdeu o controlo sobre os seus cidadãos que matam a sangue frio, indiscriminadamente, os inocentes no mesmo supermercado onde há uns tempos compraram o rifle de assalto e as munições.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de