A Opinião

Você, o estripador, na TV

"A Opinião" de Fernanda Câncio, na Manhã TSF.

Há um corpo no chão, junto a um carro. Surgem dois polícias que o lançam, a jorrar sangue, para uma carrinha de caixa aberta, onde está já outro cadáver. Enquanto o fazem, ouvem-se aplausos e gritos: "Oh, coisa boa, valeu." "É Bolsonaro. É Bolsonaro."

O vídeo, que acaba com a imagem de poças de sangue no passeio - calçada portuguesa, por sinal - foi partilhado no Twitter, em novembro, por Alexandre Frota, então recém-eleito deputado federal pelo partido de Bolsonaro.

"Já já coletivos e ONGs + Direitos Humanos e ONU começam a dar chilique. Mas a limpeza precisa ser feita", comenta Frota, em legenda das imagens.

O tweet tem mais de 20 mil likes. Muitos comentários secundam o ex-actor porno, festejando a morte.

Mas há também quem se horrorize: "Não estou acreditando no que li!!! Não consigo ter argumentos para nada... só tristeza, tomara mesmo que exista um Deus e ele tenha misericórdia de nós..."

E quem pergunte: "Não acha que esse tipo de vídeo, assim como legenda, é ofensivo demais para ser postado por um candidato eleito que prega que irá defender a família? E as crianças que acessam isso?"

Frota não responde.

Noutros tweets, insulta, ameaça, diz palavrões. É um festival de baixeza.

Em 2015, num programa de TV, gabou-se, em risota, de ter violado uma mulher, deixando-a inconsciente. Mais tarde, alegou ter inventado a história.

Em 2018, foi condenado a pagar 10 mil euros a Chico Buarque por lhe ter chamado ladrão e a uma pena de dois anos em regime aberto por imputar a um deputado de esquerda homossexual declarações - falsas - a favor da pedofilia.

É este extraordinário ser humano que Manuel Luís Goucha terá hoje no seu programa de entretenimento, na manhã da TVI.

"As voltas que a vida dá!", dizia ontem Goucha, no Facebook, apresentando o convidado como alguém que "foi actor e concorrente de reality shows e agora é deputado".

De facto, a vida dá muitas voltas. Faço este resumo sobre Frota porque o experiente apresentador não só recebeu no seu sofá o nazi criminoso Mário Machado, como permitiu, decerto por falta de informação, que um cadastrado condenado a mais de 19 anos por crimes violentos mentisse sobre esses mesmos crimes.

Goucha, que no mesmo programa lançou uma sondagem sobre se faz falta um Salazar, ficou indignadíssimo por o acusarem de promover a extrema-direita e branquear um criminoso, anunciando até o afastamento, por "falta de confiança", de quem convidara Mário Machado. Agora, depois de um programa dedicado à questão "devem os pedófilos ser castrados?" - por acaso uma bandeira da extrema-direita -, vai ter outra jóia de rapaz de extrema-direita no seu sofá.

Não dá para perceber se a TVI resolveu fazer do seu programa para idosos um laboratório de extrema-direita, ou seja, de destruidores da democracia, ou se meteu na cabeça que isso lhe melhora as audiências; se as ideias que o director de informação diz serem "repugnantes e abjectas" surgem para a direcção de programas como a sua receita de sucesso. O ponto é que, sendo o resultado o mesmo, o objectivo não se distingue.