Interpretando Putin

A maior dificuldade para conseguir um acordo com Putin é percebê-lo. Depois de tantos anos, sabemos bastante sobre como funciona Putin e as táticas que usa, mas ainda existem fortes divergências sobre o que realmente o move e os objetivos que prossegue.

Alguns especialistas entendem que Putin pretende sobretudo proteger e potenciar a posição estratégica russa no quadro global e, em particular, na região que lhe é mais próxima e tradicionalmente sujeita à sua influência. Acresce que a Rússia vê a simples possibilidade de adesão da Ucrânia à NATO como uma séria ameaça à sua segurança.

Outros especialistas, no entanto, chamam a atenção para vários discursos de Putin (incluindo nas suas tomadas de posse) que revelariam uma visão imperial da Rússia. O seu verdadeiro objetivo seria a reconstituição dos Impérios Russo e Soviético. A Ucrânia seria apenas um passo nesse caminho. A possível adesão à NATO da Ucrânia seria assim um pretexto, um passo tático, tal como o seria a invocação da proteção das minorias russas na Ucrânia ou o uso de milícias locais.

Esta segunda tese encontra apoio num texto do próprio Putin de há poucos meses. É um texto apresentado como um artigo histórico sobre, e cito o título, a Unidade Histórica de Russos e Ucranianos. Nesse artigo Putin defende, e cito de novo, que "Russos e Ucranianos são um único povo, um único todo."

Quanto mais Putin for guiado por esta visão menos provável é que qualquer acordo satisfaça as ambições russas e assegure a paz no médio e longo prazo. Será sempre um acordo tático pois não resolve o que é realmente objeto de disputa.

Até este momento a Europa e os Estados Unidos têm mostrado grande coesão parecendo acreditar que Putin não se satisfará com garantias de segurança. É difícil conseguir um acordo credível com alguém cujos verdadeiros objetivos não são claros. Na verdade, os aliados ocidentais não parecem acreditar que Putin se mova apenas por uma preocupação de segurança. O que ele pretende é controle sobre os países vizinhos e não apenas segurança. Isso a Europa e os Estados Unidos não podem dar. E não é apenas, nem principalmente, por, em vez de satisfazer a Rússia, poder servir apenas para continuar a alimentar o seu expansionismo. É porque não nos cabe ceder aquilo que não é nosso: a vontade democrática dos ucranianos. Aceitar que a Rússia possa vetar as decisões dos ucranianos seria negar à Ucrânia o estatuto de Estado soberano e democrático.

Não consigo prever se a Rússia vai ou não invadir. A Rússia quer seguramente que a ameaça seja credível. Ao contrário de vezes anteriores, desta vez não se limitou a enviar tropas, montou toda uma infraestrutura de apoio necessária a que essas tropas possam mesmo entrar em guerra (logística, hospitais etc). Depois, se invade ou não e de que forma e com que pretexto é difícil saber. A desinformação é enorme. Nos últimos dias tornou-se moda falar de desinformação de ambos os lados, mas sejamos claros não há comparação possível. Primeiro, é conhecido (e objeto de investigações independentes passadas) que a Rússia montou nas últimas décadas uma verdadeira estratégia militar de desinformação. Segundo, a desinformação é sempre menor nas democracias pois oferecem sempre mais transparência e escrutínio, o que limita os riscos e disseminação da desinformação. Não é por acaso que a Rússia apoia, e é apoiada, pelas forças populistas e pro-autocráticas da extrema-esquerda e direita na Europa (e nos Estados Unidos, sendo conhecida a simpatia mútua entre Putin e Trump).

Um ponto positivo tem sido a coesão demonstrada por Europa e Estados Unidos na resposta à Rússia. Mas se a Rússia invadir mesmo, colocaremos os nossos atos onde têm estado as nossas palavras? Estaremos prontos a pagar o preço económico das sanções que teremos de aplicar? A coesão atual também se exprimirá em solidariedade para lidar com essas consequências económicas? Putin parecia acreditar que Europa e Estados Unidos não seriam consequentes. Ainda acreditará nisso? Terá ele feito o cálculo do preço a pagar se a Europa for consequente? Há quem diga que o maior dissuasor ao conflito armado é, no entanto, a capacidade de resistência do exército da Ucrânia que muitos estimam poder causar sérias baixas aos russos. Acresce que há muitas famílias divididas de um lado e outro da fronteira e essas mortes teriam impactos negativos para Putin. O seu poder interno podia sofrer. Ao mesmo tempo, é claro que a pressão para que não ceda é forte. Não parece haver nada que a Europa e os Estados Unidos possam dar a Putin que lhe permita salvar a face.

Voltamos ao início: não tendo certezas sobre o que realmente move Putin é impossível prever o que irá acontecer.

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