Liberdade, activistas, jornalistas e o seu sofrimento

O Prémio Sakharov é uma iniciativa europeia na qual eu tenho muito orgulho. Pela coerência entre os movimentos e as pessoas escolhidas e pela justiça que é feita, na medida do possível, a tantas, tantas vítimas de violações de direitos humanos e, em particular, à sua liberdade de pensamento.

Já o Prémio Nobel para a Paz, de quando em vez, diverge do que me parece ser essencial. Talvez o melhor exemplo desta incongruência tenham sido os anos de 2009 e de 2010: um Barack Obama acabado de chegar à Casa Branca e, em 2010, o professor, activista, dissidente e preso político: o chinês Liu Xiaobo.

Mas, em relação a 2021, eu diria que o Comité acertou na mouche ao atribuí-lo a dois jornalistas extraordinários: a filipina Maria Ressa e o russo Dmitry Muratov. Se acrescentarmos o laureado Sakharov deste ano, o russo Alexei Navalny, constatamos que Moscovo faz o "pleno". Infelizmente, é claro, para a própria sociedade russa.

Há muito que podemos dizer sobre Navalny. A mim impressionou-me e muito a sua coragem de regressar à Rússia depois de ter sido vítima de uma tentativa de assassínio por envenenamento e pelo modo como tem resistido, e a expressão é importante, como preso político. Mais um dos laureados Sakharov cujo prémio provavelmente será entregue in absentia, ou seja, sem a sua presença física, como aliás aconteceu, em 2019, com o uigure Ilham Tohti.

Dmitry Muratov é um decano das andanças do jornalismo. Segundo o Comité do Nobel, "foi um dos fundadores, em 1993, do jornal independente Novaja Gazeta. E, desde 1995, tem sido editor-chefe num total de 24 anos. É o jornal independente mais importante na Rússia e tem uma atitude crítica face ao poder". Estas palavras do Comité são importantes, pois "ter uma atitude crítica" face a um poder ditatorial como o de Kremlin é um acto de rebelião quotidiano e com consequências mortais. O Comité realça o seguinte: "desde que o jornal começou, seis dos seus jornalistas foram assassinados, incluindo Anna Politkovskaya, uma jornalista que escrevia a verdade sobre a guerra na Chechénia".

Por entre os anúncios destes prémios, passou quase despercebida uma notícia igualmente importante: um Estado, a Colômbia, foi condenado pelo Tribunal Inter-Americano de Direitos Humanos. E qual é o caso em concreto? É o de uma jornalista de seu nome Jineth Bedoya, que, no contexto da guerra civil colombiana, foi vítima de horrores às mãos dos seus raptores, uma milícia paramilitar, em 2000. Segundo a Deutsche Welle, a agência noticiosa alemã, "foi brutalmente agredida e violada durante 16 horas até que a largaram nua à beira de uma estrada". Perante tudo isto, a Colômbia "foi considerada responsável internacionalmente", pois "os crimes não poderiam ter sido levados a cabo sem o consentimento e a colaboração do Estado, ou pelo menos com a sua tolerância".

Se, por um lado, estas palavras são importantes, é uma decisão que vem tarde (21 anos depois...), mas, por outro lado, a vítima não deixou quaisquer dúvidas sobre o que sentia: "18 de Outubro de 2021 é um dia histórico, um dia no qual uma luta que começou com um crime individual levou a que fosse feita justiça aos direitos de milhares de mulheres que foram vítimas de violência sexual e justiça aos direitos das jornalistas mulheres que deixam uma parte das suas vidas no trabalho".

Os jornalistas e os activistas estão na linha da frente deste combate pela liberdade de expressão, de pensamento e de informação face aos abusos, às ditaduras e aos iliberalismos.

Pelo seu exemplo e pelo seu sofrimento neste combate tão duro, obrigada a Navalny, a Ressa, a Muratov e a Bedova.

*A autora não segue as normas do novo acordo ortográfico

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