Lisboa, um porto seguro da liberdade

Daniel Oliveira defende que "o procedimento burocrático que, violando todas as normas de proteção de dados, correspondia a enviar a ministérios, instituições e embaixadas a identidade dos organizadores de manifestações" revela uma incompetência grosseira da Câmara Municipal de Lisboa", apesar de considerar que "ninguém sério acredita que Fernando Medina é cúmplice de Vladimir Putin".

No espaço de opinião que ocupa semanalmente na TSF, o comentador sublinha que esta "não foi uma falha isolada, mas um erro continuado".

"Não indiferente que um erro não resulte de uma intencionalidade política, mas também não é indiferente que seja continuado e sistemático", sustenta.

Na perspetiva do jornalista, "para perceber a extensão da responsabilidade do presidente da Câmara e onde acaba a incompetência dos serviços e começa a incúria do seu gabinete, precisamos de saber em que momento Fernando Medina soube deste procedimento", pois "só uma investigação independente e muitos esclarecimentos nos podem dar respostas".

Para Daniel Oliveira, "há muitos debates a fazer a propósito deste triste episódio", sendo que "um deles é a ausência de uma cultura de proteção de dados na administração pública".

"É evidente que no setor privado ainda é pior, porque muitas empresas até vendem os nossos dados, mas a essas só os damos se quisermos", acrescenta.

Outro dos debates que o jornalista considera necessário "é o fim dos governos civis, aplaudido por todos os que passam muito tempo a falar dos tachos e pouco a pensar na racionalidade do funcionamento do Estado: uma decisão que teve efeitos que vão da perda de eficácia no combate aos fogos à confusão na preparação de manifestações feita por autarquias sem qualquer poder sobre as forças de segurança ou relação com o Governo".

Por fim, Daniel Oliveira sublinha que "há, claro, as consequências políticas para Fernando Medina, mas essas serão decididas pelos lisboetas daqui a quatro meses".

No centro das preocupações do cronista está "o risco em que ficaram os ativistas que resistem à ditadura russa e todos os outros que tenham visto os seus nomes serem e entregues a embaixadas".

Daniel Oliveira espera que esta seja a preocupação de todos os democratas solidários: "Insisto no termo solidários, porque para esta indignação só estão convocados os que têm a solidariedade internacional como prioridade coerente na sua ação política quotidiana", expõe.

"Quero que a minha cidade e o meu país sejam um lar seguro para os que são perseguidos por todas as ditaduras religiosas ou laicas, cristãs ou muçulmanas, de esquerda ou de direita, europeias ou africanas. Quero que se sintam seguros em Lisboa e em Portugal, que essa seja, aliás, a principal atratividade do nosso país: chamar os que buscam uma vida melhor, incluída nessa vida o direito à liberdade. Sei que essa imagem ficou abalada pelas notícias deste caso que chegaram à imprensa internacional", sustenta.

Para o jornalista, "é dever dos estados europeus proteger os que fogem da opressão e da arbitrariedade, da prisão e da tortura, da censura e da perseguição". Daniel Oliveira sublinha que "para ter esta posição é necessária coerência", já que "de nada serve protegermos os ativistas russos e continuarmos a ser um dos países europeus que mais recusa pedidos de asilo político".

"É pura hipocrisia juntar a voz ao coro de justa indignação com este caso e aceitar que se deixem morrer no Mediterrâneo milhares de refugiados vindos de outras paragens. Quem trata refugiados como suspeitos não pode perceber o que realmente está em causa neste caso. Quem anda de braço dado com políticos europeus que querem devolver os refugiados às ditaduras de onde eles fogem não tem lugar nesta revolta. Quem, quando discorda de um estrangeiro ou de um naturalizado, o manda para a sua terra não tem autoridade para falar deste tema", defende.

Daniel Oliveira acredita que "este caso, que revela uma falta de cuidado com a segurança dos outros, deve servir para mobilizar aqueles que desejam que Lisboa e Portugal sejam o melhor refúgio que qualquer democrata pode procurar, um porto seguro da liberdade".

"Se for menos do que isto, se servir apenas para o "tira o Medina", enquanto se encolhe os ombros perante a recusa de asilo e a maior vala comum do mundo que é o Mediterrâneo, de pouco serve. É só mais um episódio da pré-campanha. Sim, faz parte do escrutínio democrático a que estão sujeitas todas as instituições públicas, mas não fará nada pela causa que nos leve a achar intolerável que aqueles nomes tenham chegado a Moscovo. A solidariedade é empenhada por todos os que procuram a liberdade, seja qual for a sua nacionalidade, etnia ou religião", remata.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de