Manual de Instruções para Entender o Governo Bolsonaro

O problema do novo governo brasileiro não é a ideologia de extrema-direita mas a falta de uma ideologia.

A embalagem diz que o governo de Jair Bolsonaro é de extrema-direita, antissistema, tecnocrata e formado pelos mais resilientes à corrupção. Porém, as primeiras semanas de administração destapam um cenário diferente, que vai ficando cada vez mais ostensivo à medida que o tempo passa.

Sem experiência executiva e, por isso, sem acesso a uma equipe de trabalho lubrificada e preestabelecida, Bolsonaro não conseguiu compor um governo conexo. Na verdade, existem pelo menos três governos dentro do governo federal, com vasos comunicantes coagulados entre eles.

O primeiro é o dogmático. É a concessão de Bolsonaro às suas inquietações néscias e às igrejas evangélicas dos subúrbios das grandes cidades. É o regresso ao julgamento de Galileu pela Inquisição. Sem eloquência nem ciência, defende-se o fim do "globalismo" e do "marxismo cultural" (Ministro das Relações Exteriores), creem ter tido visões de Jesus Cristo em cima de uma goiabeira (Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos) ou acreditam que "Deus está de volta ao Brasil" (Ministro da Educação). É o grupo dos despreparados e dos que gerarão a matéria-prima para o escárnio internacional.

Mas serão úteis também. Servirão para desviar as atenções das medidas impopulares aplicadas por outros grupos, darão conforto emocional aos brasileiros que verdadeiramente acreditam que o criacionismo deve ser ensinado nas escolas e o socialismo abolido dos livros, e ajudarão a cultivar bodes expiatórios. Se alguma coisa der errado, a culpa será dos opositores do regime: os defensores dos direitos humanos, a esquerda que "propaga que um feto humano é um amontoado de células descartável," ou os intelectuais e artistas "que vivem à custa de subsídios públicos."

É um grupo que idolatra Bolsonaro.

O segundo é o jurídico-militar-policial. É quem gosta de dar um murro na mesa e pôr ordem na casa. São os tratores que passam por cima do cereal para cortar caminho. Se for necessário dar ordens ao presidente, darão. Dos 22 ministros, sete são militares. É o grupo responsável pela coordenação estratégica, infraestrutura, segurança e defesa nacional, ciência, e minas e energia. Controlam os temas ligados à soberania nacional. Têm destaque o Vice-Presidente Hamilton Mourão, o Ministro da Justiça Sérgio Moro, o chefe da Secretaria de Governo (ministério que faz a ponte com o Congresso) Carlos Alberto dos Santos Cruz e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (responsável pelos serviços de inteligência), Augusto Heleno. Participam no governo com régua e esquadro. Encaram-no como uma missão de paz no Congo ou no Haiti.

É um grupo que mantém uma relação meramente institucional com Bolsonaro.

O terceiro grupo é o económico. Aqui o interesse é monetário. Liderado pelo Ministro da Economia Paulo Guedes, é composto por pessoas de ideias liberais que fazem uma incursão rápida pelo governo para vitaminar as suas carreiras e garantir o enxugamento da máquina do estado. Conhecem-se todos há muito tempo, partilharam universidades no estrangeiro, palestras em São Paulo e dividendos anuais em fundos de investimento. É por causa deste grupo que a elite brasileira votou em Bolsonaro. Marcarão o governo pelo pragmatismo. Tanto farão alianças com a China quanto com os EUA, cortarão dinheiro para a segurança social, apoios culturais e programas sociais até que o Excel fique no azul. Direitos trabalhistas, interesses indígenas e vontades da população negra não fazem parte do algoritmo. Mudança da Embaixada para Jerusalém? É um cataclismo irrelevante, desde que não afete as contas públicas.

O Ministro do Meio Ambiente, que em entrevista exclusiva à TSF , deixou claro que a sua prioridade é garantir a eficiência da máquina pública, diminuir o assistencialismo do estado às ONGs ambientalistas e cimentar uma aliança entre a sustentabilidade e o desenvolvimento económico, também faz parte deste grupo.

Quando a faca bater no osso, os integrantes deverão começar a sair do governo e a reocupar cargos no mercado financeiro. É um grupo que abomina os seus colegas dogmáticos, inquieta-se com o peso que o grupo militar possa vir a ter e que não nutre um particular respeito por Bolsonaro. Se conseguirem concluir o trabalho no primeiro mandato, vão torcer para que o presidente não se recandidate. Preferirão apoiar um republicano em sentido americano e alguém menos constrangedor. Um Sebastián Piñera brasileiro.

É por isso que o governo Bolsonaro, contrariamente ao que indica o anúncio, está longe de ser um governo ideologicamente homogéneo e mais longe ainda de ser um governo de extrema-direita. A maioria dos seus membros é simplesmente uma massa utilitarista e pragmática - seguem o poder. Também está longe de ser um governo antissistema. A maioria passou por governos anteriores, pelo Congresso Nacional ou por Assembleias Estaduais e quase todos são filiados a partidos políticos. O novo presidente do banco estatal de desenvolvimento BNDES, a joia da coroa da economia brasileira, foi ministro das Finanças da petista Dilma Rousseff.

Também não é um governo tecnocrata, que conseguiu atrair as melhores cabeças. Com meia dúzia de exceções, a qualidade técnica das pessoas é baixa. O Ministério da Educação, por exemplo, foi ocupado por educadores que se destacaram nas redes sociais e em blogues pelas suas teses radicais e autodidatas. O novo responsável pelo ENEM, a prova que dá acesso ao ensino superior, já defendeu publicamente que os professores no Brasil "pregam o aborto, incesto e pedofilia."

Finalmente, está muito longe de ser um governo dos puros. Alguns ministros e pessoas próximas a Bolsonaro, incluindo a própria família, ocuparam as manchetes dos jornais nas últimas semanas com suspeitas de corrupção e casos de improbidade administrativa e de fraude. E em nenhuma destas situações Bolsonaro tomou uma posição de força, de líder, ao afastá-las enquanto estivessem a ser investigadas.

E Agora?

Nos primeiros meses o Governo deverá anunciar medidas significativas, algumas delas durante o Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, ligadas à reforma da segurança social e do sistema tributário, à manutenção (ou não) do subsídio ao óleo diesel para os camionistas ou à privatização de empresas e infraestruturas públicas. Gerarão alguma empolgação.

Mas estes anúncios não deverão conseguir mascarar os riscos inerentes a este governo.

A comunicação entre os três grupos é gaguejante, como se viu logo na primeira semana quando Bolsonaro anunciou um conjunto de novas medidas económicos e foi humilhado por um secretário de estado que, a pedido do Ministro da Economia, desmentiu-as todas em público no mesmo dia. É como António Costa apresentar, de manhã, o novo aeroporto do Montijo e o Secretário de Estado das Infraestruturas dizer, à tarde, que afinal vai ser na Ota.

Por isso, os maiores riscos deste governo não advêm do tamanho de criança do vocabulário de Bolsonaro nem da sua feição intolerante. O presidente é apenas um ser "ignorante, abanando com a cabeça que sim" (como Eça de Queiroz descreveu a Assembleia da República). Alguém que preza o escapismo e a desconversa para disfarçar as suas ignorâncias. A maior ameaça é a possibilidade do governo começar a esfarelar-se por dentro - conflitos internos, duplicação de funções, falta de comunicação, adoção de medidas inoperantes, casos de corrupção.

Se a sua 8.ª maior economia tornar-se ingovernável, o mundo será afetado. E Portugal necessariamente também.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e California-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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