Maradona e o Mundo

Os elogios fúnebres a Diego Armando Maradona foram muitos. De todos, gostaria de destacar Jorge Valdano e o Papa Francisco. Ambos argentinos e de luto, tal como os cerca de 45 milhões de compatriotas. Na verdade, é o futebol e a humanidade que também estão de luto.

O que representou Diego? Para mim, a última geração de futebol que viveu de forma genuína a liberdade de jogar à bola. Essa liberdade fez com que Diego trouxesse sempre as suas origens consigo e foi para elas que o número 10 argentino sempre falou.

Para lá do relvado, o percurso de Maradona foi igualmente intenso, embora trágico. Faz lembrar a vida de outros artistas da bola, tais como Garrincha ou George Best. Muitas vezes, Diego falou mal e demais. Mas nada disso interessa agora. Morreu o homem e fica o herói.

Mas o que distingue Maradona? Na sua essência Diego demonstrou, através do seu exemplo, que os do costume não ganham sempre. Através deste número 10, muitos adeptos sentiram a esperança de poderem ir mais longe e de sonharem mais alto. É unânime destacar a sua façanha no Mundial de 1986 e, em particular, a derrota da selecção inglesa. Aliás, basta ver hoje as capas dos tabloides ingleses para percebermos como a derrota ainda não foi digerida.

Mas, para mim, a sua forma de jogar, de trazer a rua para um campo de futebol, de desafiar as probabilidades é melhor exemplificada pela sua decisão de jogar no Nápoles. Foi para o sul de Itália, aquele Sul para o qual o Norte olha de forma sobranceira em todas as dimensões, desde a económica à futebolística. Maradona representou todo o Sul pobre e esquecido. Ainda hoje, mesmo o napolitano mais carrancudo se derrete quando mencionamos o nome de Diego.

O meu amigo Andrés Malamud escreveu sobre a morte de Maradona de forma sentida e vivida. Depois de explicar o sucesso de Gabriel Batistuta em Florença, escreve: "Quando visitei Nápoles, tive um choque cultural. Maradona estava noutra dimensão. (...) Florença não foi a mesma quando Batistuta foi para Roma. Nápoles nunca deixará de ser Maradona."

Maradona trazia a bola e o jogo de rua consigo. Viveu os altos e os baixos do seu percurso de forma intensa. Agora que morreu, o que interessa é verdadeiramente celebrar a sua vida no relvado e o modo como inspirou tantos.

A agência noticiosa do Vaticano descreveu assim a morte de Diego Armando Maradona: «Morreu o poeta do futebol».

*A autora não segue as normas do novo acordo ortográfico

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de