Marcelo, a pandemia e as presidenciais

O vírus que nos mudou a vida há de mudar também muita coisa na política. Cá dentro e lá fora. Trump tem a reeleição em risco. Bolsonaro, a continuar assim, pode nem sequer chegar às próximas eleições. No Reino Unido, Boris Johnson vai-se aguentando por falta de comparência do adversário. E em França - só para dar alguns exemplos - Macron não precisou propriamente da pandemia para se estampar de frente contra uma parede, mas lá que levou um valente empurrão, isso levou.

Portugal, o eterno bom aluno, parecia ser a exceção à regra. A política confinou durante três meses, a oposição era elogiada lá fora, o Presidente da República e primeiro-ministro foram-se desfazendo em declarações de amor eterno. Nada parecia estragar esta paz. Nem eleições, nem congressos e muito menos uma crise económica e social sem precedentes. Só que não é bem assim. O desconfinamento do país reabriu também a política e o próximo ano vai ser a doer.

Marcelo - que muitos dizem andar em campanha permanente - começou a dar, esta semana, os primeiros sinais de preocupação com as presidenciais de 2021. Num cenário de recessão económica, elevados níveis de desemprego e de crise social gravíssima, a colagem ao Governo pode tornar-se altamente prejudicial para a reeleição. Ele, melhor que ninguém, sabe que os elevados índices de popularidade que as sondagens lhe atribuem podem esfumar-se rapidamente num contexto como este. E a Marcelo Rebelo de Sousa não basta ser reeleito com 51% dos votos. É preciso uma vitória esmagadora que o legitime para um segundo mandato.

Juntemos a todos estes fatores uma ameaça bem real: André Ventura, o oportunista político do momento. E temos aí a explicação para as movimentações de Marcelo Rebelo de Sousa, das quais a decisão de acabar com as reuniões no Infarmed é apenas o exemplo mais recente. O Presidente sabe que os próximos meses não vão ser fáceis e que quanto mais colado estiver ao Governo, maior a probabilidade de ficar enlameado.

A descolagem do Governo é calculada, até porque a probabilidade de o PS apoiar oficialmente um candidato às próximas presidenciais é praticamente nula e à esquerda não há muito mais terreno para conquistar. É por isso que, ao mesmo tempo que Marcelo começa a distanciar-se de António Costa, começa também a reaproximar-se da direita. E a estratégia parece ser conquistá-la pelo estômago. Os jantares com comentadores, opinion makers e passistas inveterados mostram uma evidente preocupação com uma fatia considerável do centro-direita que ainda não digeriu a chegada de Rui Rio à liderança do PSD, vive irritada com a proximidade de Marcelo a António Costa e não consegue ultrapassar o sentimento de orfandade.

Mais do que temer uma nova candidatura à direita - que parece cada vez mais improvável -, Marcelo quer mobilizar este lado do eleitorado e evitar a todo o custo que esta pandemia se transforme numa bomba relógio capaz de explodir no dia das eleições. É verdade que os segundos mandatos dos Presidentes da República são sempre diferentes dos primeiros, mas, neste caso, Marcelo sabe que, para enfrentar o que aí vem, precisa de uma legitimidade política muito mais alargada. E, para isso, não pode continuar a interpretar o papel de polícia bom do Governo.

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