Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Teerão

Daniel Oliveira defende que Christiane Amanpour, que "já usou o véu noutras circunstâncias", "fez bem" em recusar usá-lo para entrevistar o presidente do Irão nos Estados Unidos.

"Raisi queria mostrar às iranianas que até Amanpour, que cresceu em Teerão e fala farsi, se vergava à sua vontade. Não conseguiu", afirma o cronista no seu espaço habitual de Opinião na TSF.

O jornalista recorda que o Irão "já foi uma sociedade laica e progressista, mas o primeiro-ministro Mossadegh, democraticamente eleito em 1951, teve a má ideia de nacionalizar o petróleo". "Ingleses e norte-americanos patrocinaram um golpe de Estado e ajudaram a forçar o poder do Xá Reza Pahlavi, que à força das armas, ocidentalizou o Irão sem lhe dar a liberdade e a justiça. Assim se criaram as condições para a revolta que levaria os ayatolas ao poder. E as suas principais vítimas foram, como sempre, as mulheres", considera.

Abordando o caso de Mahsa Amini, que "teve o azar de usar o hijab sem o rigor que o regime impõe a todas as mulheres, independentemente das suas convicções pessoais, culturais ou religiosas", Daniel Oliveira refere que "a temível polícia da moralidade não gostou, levou-a para um centro de reeducação para lhe dar lições de modéstia e, três dias depois, a rapariga, de 22 anos, estava morta".

"Só que desta vez, rebentou a revolta. Não é a primeira que há protestos, mas é a primeira vez que iranianos ricos do Norte da capital se manifestam ao lado dos vendedores de bazares do sul. Até algumas mulheres que usam hijab por opção participaram em campanhas de solidariedade. O lenço transformou-se no catalisador de todo o descontentamento contra a repressão da teocracia. Depois de alguma abertura ter sido revertida, o recuo tornou-se especialmente insuportável e os jovens já não acreditam que o sistema seja reformável", explica o jornalista, sublinhando que "contra a corrupção, ninguém é mais corrupto do que os moralistas".

"Na última década, o PIB per capita vai de mais de oito mil dólares para menos de três mil. E as políticas de Raisi têm exacerbado o colapso provocado pela sanções. Não discuto - como muitos - o direito de cada muçulmano usar o que quer na cabeça. Não tenho vocação para polícia da moralidade, mesmo quando a moral dos outros me incomoda. Não luto pela liberdade e autodeterminação dos indivíduos para ser eu a decidir como se vestem. O que me interessa é que a lei proteja as escolhas livres de todos, sempre que elas não prejudiquem os outros", sustenta Daniel Oliveira.

O comentador admite que "é por isso que ver aquelas mulheres, muitas delas raparigas, a filmarem-se a cortar o seu cabelo, um gesto de uma enorme violência simbólica em quase todas as culturas, mas sobretudo naquela, me enche de esperança no mundo".

"Mulheres arrancam lenços da cabeça para os queimarem em fogueiras de rua, dançando descobertas em frente à polícia de choque. No metropolitano e na rua respondem aos religiosos que as admoestam quando as vêm de cabelo solto e livres: "Não tens nada a ver com isso. Não me dizes o que posso e não posso usar. Quero ser livre no meu país. Se te excitas com o meu cabelo, és tu o problema." Milhares de mulheres enxotam com raiva e alegria a opressão em que vivem há décadas. É bem provável que, depois do primeiro abalo, o regime faça abater sobre elas a sua mão pesada, mas é bom recordar que o instinto para a liberdade é tão humano como um instinto para a submissão."

O cronista afirma que "pouco lhe interessam os que nunca vejam qualquer luta pelos diretos das mulheres, mas se tornam feministas instantâneos se isso lhes permitir dar largas à intolerância religiosa". "A mim interessam-me estas mulheres, quem me dera ter um dia - apenas um dia chegava - um décimo da sua coragem. Mas ao ver o que arriscam pela sua liberdade, não posso deixar de me sentir abatido com o nosso cansaço com a democracia e com a estranha nostalgia pela ordem e autoridade que está a tomar as sociedades ocidentais", reconhece.

"Bem sei que numa sociedade onde os filhos já não acreditam que viverão melhor do que os pais, há razões para o desalento. Mas olhem para as mulheres de Teerão ou para os pacifistas em Moscovo, recordem o jornalista morto pelo príncipe da Arábia Saudita, as damas de branco que durante anos lutaram pela libertação dos presos políticos em Cuba, as mães da Praça de Maio que deram a cara pelos desaparecidos da ditadura argentina, os que em Portugal apodreceram no Tarrafal ou foram torturados na António Maria Cardoso, os milhões que morreram nos campos de concentração nazis e nos Gulags estalinistas", lembra.

"Mas enquanto as iranianas repetem o Bella Ciao, fazendo da canção da resistência italiana ao fascismo o seu hino, são os herdeiros desse fascismo que ganham as eleições em Itália. Dizem, menos distantes dos ayatolas do que julgam, Deus, Pátria, Família. Perante todas as vidas que a liberdade custou e o exemplo das mulheres iranianas, os europeus dão-se ao luxo de estarem cansados da liberdade", conclui.

*Texto redigido por Carolina Quaresma

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