Nada é simples na Catalunha

Nada é simples na Catalunha. Assim pensa Adolfo Mesquita Nunes, que, ouvido na manhã da TSF, considera que "até hoje não houve nenhum instrumento válido que pudesse avaliar a vontade dos catalães em ser um Estado independente".

Por um lado, refere o ex-vice-presidente do CDS, "a independência, como tal, desta forma unilateral, só surge há muito poucos anos nos programas eleitorais dos partidos, e, nas últimas eleições autonómicas, quem venceu foi um partido soberanista, um partido contra a independência".

O cronista acrescenta que "o referendo, por razões várias - alguns independentistas têm algumas razões e os soberanistas têm outras -, não serviu, não é válido onde os soberanistas nem sequer foram votar" e que este "não permite saber ao certo se a Catalunha quer ou não quer ser independente".

Na Catalunha nada é simples, também porque "é conhecido que há regiões na Catalunha que não querem essa independência do ponto de vista maioritário". Isto é, e Adolfo Mesquita Nunes explica, "do ponto de vista teórico, é muito fácil nós compreendermos o direito de um Estado de sair de outro e tornar-se independente", mas falta "tentarmos perceber o que é que acontece no dia seguinte e se estão todos de acordo".

O centrista, preocupado com os impactos possíveis para os que não sonham com a independência, exemplifica com um caso de maior proximidade: "Se os Açores quiserem ser independentes mas a ilha da Terceira e as Flores tiverem votado contra a independência, são obrigadas a seguir as restantes na sua independência ou podem ficar em Portugal?"

"Esta ideia de que há um direito que foi exercido na Catalunha parece-me claramente apressada, como me parece claramente apressada a ideia de que há presos políticos na Catalunha", diz mesmo o ex-vice-presidente do CDS.

Outra das falácias que Adolfo Mesquita Nunes pretende desmistificar é a de que os independentistas receberam as acusações do Supremo Tribunal apenas pelas suas convicções políticas e por exercerem o seu direito a protestar: "Não temos pessoas presas por serem a favor da independência, de se organizarem a favor da independência e de se manifestarem a seu favor, mas, sim, por terem utilizado mecanismos que violavam a lei e que ultrapassam aquilo que a lei considera aceitável."

Para o centrista, "é evidente que o Estado, um Estado de direito, tem de atuar", e lembra mesmo que estamos a falar de Espanha, um Estado de "democracia liberal"."Não estamos a falar de um regime autoritário que está a tentar carregar em cima de manifestantes ou de pessoas que se estão a revoltar."

Questionado pelo jornalista Nuno Domingues na manhã da TSF, Adolfo Mesquita Nunes admite que a "grande dificuldade" é criar uma "ferramenta" mais eficaz para dissolver este dilema. "O referendo seria eventualmente um instrumento possível. Não é possível ao abrigo da Constituição espanhola, mas, ao abrigo da Constituição espanhola, esta situação nunca se vai resolver, porque esta questão está fechada."

E esta Constituição em vigor, "apesar de tudo, foi referendada e votada por uma esmagadora maioria, e tem sido um instrumento de paz e de convivência em Espanha", por isso Adolfo Mesquita Nunes confessa ter "muitas dúvidas" sobre a possibilidade de um referendo "em que a única coisa que perguntam às pessoas é se querem ser independentes ou não", e em que, naquele dia, "uma maioria circunstancial decide a vida de todos os outros".

"Disse isto relativamente ao Brexit, digo isto relativamente a um referendo como este", compara. De acordo com o ex-vice-presidente do CDS, "coisa diferente seria uma proposta calendarizada, faseada, em que as pessoas sabem exatamente aquilo em que estão a votar". "Aí poderíamos ter um instrumento talvez mais completo do ponto de vista democrático."

Adolfo Mesquita Nunes critica, portanto, "referendos com perguntas emocionais, e, sobretudo, sem explicar o que acontece às regiões que não querem sair e que se localizam dentro da Catalunha", e apelida-os de um "instrumento fraco", sobretudo na iminência de eleições gerais espanholas.

"Essa é uma das principais dificuldades para o Governo espanhol, porque, se Pedro Sánchez entra e aplica a lei de segurança nacional, e se recorre aos organismos que estão na Catalunha para repor a ordem, ele teme as consequências, desde logo, televisionadas."

Há outro aspeto que preocupa o militante do CDS: os discursos xenófobos que têm germinado desta luta. "A questão da Catalunha é responsável pelo surgimento de partidos muito mais à direita, como é o caso do Vox. É o fim da possibilidade do Estado espanhol tal qual o conhecemos que alimenta grande parte do discurso do Vox", salienta.

Adolfo Mesquita Nunes sublinha ainda que na Catalunha vivem muitos cidadãos que não nasceram na região e que é fomentado o discurso de que, mesmo em Barcelona, essas pessoas não deveriam ter o direito a votar. A estas frases o centrista chama de "manifestamente xenófobas", e reporta que "comparam a Catalunha à Dinamarca e o resto de Espanha ao Magreb".

A estas crenças o centrista responde com uma crítica perentória: "São argumentos xenófobos que eu normalmente associo aos nacionalismos."

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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