Não há democracia com desigualdade

Daniel Oliveira considera que Portugal é um país marcado pela desigualdade e que isso compromete a democracia. No espaço de opinião que ocupa semanalmente na TSF, o comentador defende que se não tratarmos da "doença" da desigualdade, tudo "o resto falhará".

Citando um estudo sobre os valores dos portugueses, conduzido por investigadores do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Daniel Oliveira constata que em Portugal, de facto, há mais pessoas a apoiar um sistema democrático do que não democrático. Mas, para o jornalista, o "otimismo acaba aqui", uma vez que "parece haver um equívoco sobre o que quer dizer 'democracia'".

"Está na moda dizer que a democracia não se cumpriu", mas "a democracia não se cumpre, ela apenas nos dá os instrumentos para escolhermos o caminho que queremos seguir", nota Daniel Oliveira.

Salientando que, de acordo com o estudo em causa, há agora menos portugueses a recusar um "líder forte, que não se tivesse de preocupar com eleições ou parlamento", o comentador conclui que, embora a maioria defenda a democracia, "boa parte não se importa de ser liderado por quem não a tenha como principal critério de governação".

Para Daniel Oliveira, o caminho da democracia depende de mínimos de igualdade. Só que Portugal mostra, na opinião deste, uma das mais evidentes consequências da desigualdade social e económica: a falta de confiança interpessoal.

"Quanto mais igualitária for uma sociedade desenvolvida, maior tende a ser a confiança interpessoal, porque as pessoas pisam um chão comum", explica o jornalista, apontando que Portugal está entre os países da Europa com mais baixos níveis de confiança.

Além desta falta de confiança no outro, há também falta de confiança nos líderes políticos. Daniel Oliveira fala numa "depreciação dos políticos eleitos", consolidada pela "convicção de que a política é o único poder que deve ser escrutinado", levando a que os portugueses preferiram que sejam especialistas técnicos, em vez dos políticos, a tomar decisões.

"As pessoas confiam mais em poderes que não controlam do que naqueles que elegem. Preferem ser liderados por gestores, académicos, magistrados ou militares do que por eleitos", repara, censurando a primazia da tecnocracia. "Quanto menos exposta ao escrutínio mediático estiver uma corporação, mais as pessoas confiam nela."

"A democracia não está em crise apenas em Portugal, mas o que é assustador é perceber como em todos os indicadores preocupantes estamos ao lado dos países do leste europeu, que só conheceram a democracia nos anos 90 e que, ao contrário de nós, nunca se entregaram a ela com grande apego", alerta o comentador.

E para aqueles que apontam que o problema é a "qualidade" dos políticos portugueses, Daniel Oliveira admite que é "confortável" pensar assim, mas recorda que, mesmo fora da política, Portugal tem das populações com menor participação cívica.

"A estrada da democracia não é feita pelo Estado, é feita pelo povo. Não somos consumidores de democracia, somos produtores. Quando ela falha, somos todos nós que falhamos", declara. "Estamos a falhar porque não confiamos uns nos outros, porque somos dos países mais desiguais da Europa. Essa é a nossa doença. Se não tratarmos dela, tudo o resto falhará, a começar pela democracia."

Texto: Rita Carvalho Pereira

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