Não há neutralidade entre o Homo sapiens e o Homo fóbico

Lidamos com dificuldade com o tema da homofobia, não empenhamos todos os nossos esforços para a combater, como fazemos, e bem, com o racismo. Preferimos ignorar, fazer de conta que não vemos. A secretária de Estado que se coloca em cima do muro, julgando que é possível defender um dever de neutralidade, faz o que faz muita gente faz, inclusive na comunicação social portuguesa, para quem os insultos a Cristiano Ronaldo no primeiro jogo contra a Hungria passaram claramente ao lado. Um estádio a gritar "Ronaldo homossexual", no dia em que os húngaros aprovaram a lei de que agora tanto se fala, mereceu da Federação Portuguesa de Futebol uma atitude de macaco. Macaco sábio, que tapa os olhos, os ouvidos e a boca, para não ver o mal, ouvir o mal e não dizer o mal, na esperança de que ele assim não exista. Alguém imagina possível todo este silêncio se os gritos de Budapeste tivessem sido racistas contra Danilo ou William, por exemplo?

Não me parece razoável que, na defesa dos direitos humanos, se entenda que há uns que merecem a nossa indignação e outros a nossa ignorância, sem esquecer que o valor da vida é um valor supremo, mas que é preciso dar-lhe o sentido que só se encontra quando vivemos com inteira liberdade.

Há notícias de que Portugal, ou melhor, o governo português, reencontrou a dignidade e o primeiro-ministro confrontou o governo húngaro, lembrando a Viktor Órban que a União Europeia é, ou devia ser, um espaço de democracia, onde a adesão é voluntária, e não imposta com na antiga União Soviética.

É bom perceber que também no combate à homofobia se vai construindo uma consciência coletiva, que nos faz avançar, ser mais tolerantes com a diferença, defensores da liberdade. Aplaudo a capa do Expresso, com uma mudança do logo, assumindo as cores da comunidade LGBTI.

Esta indignação crescente, que nos dá a esperança de que a Europa continue a ser o espaço do Globo onde a defesa da tolerância e da liberdade é mais efetiva, ficamos a devê-la aos alemães, que quiseram aproveitar o futebol para enviar uma mensagem aos húngaros. A UEFA pôs-se em cima do muro, num muro que estava carregado de portugueses, com especial destaque para a Federação Portuguesa de Futebol, a seleção e a secretária de Estado dos Assuntos Europeus. Ainda bem que as coisas estão a mudar.

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