Não há votos inúteis

Todos os partidos desvalorizam as sondagens quando estas lhes são desfavoráveis, mas esta campanha é o exemplo evidente da rapidez com que se realinham estratégias em função do sobe e desce das percentagens. António Costa recupera o diálogo, Catarina Martins convida para reuniões no dia 31, PCP diz que sempre esteve disponível para a convergência, Rui Rio solta ainda mais as piadas e reflexões do Zé Albino, os partidos à sua direita tentam resistir à pressão do voto útil.

A lengalenga do voto útil interessa sempre aos mesmos: os que têm aspiração a governar. E a tentação de apelar ao voto útil aumenta com os sinais de equilíbrio que traçam cenários de grande imprevisibilidade para o próximo domingo, colocando PS e PSD praticamente empatados. A tentação é ainda maior nos círculos de pequena dimensão, em que os partidos fora do arco do poder não elegem, havendo o risco de se cair na falácia de que votos que não elegem de nada servem.

Há mil e uma razões para se discutir esta teoria. Algumas relativamente teóricas, como o significado do voto e a crença ou identificação com aquilo que se escolhe, mas mesmo quem gosta de pragmatismo facilmente perceberá que não há votos inúteis:

Parecendo óbvio, convém recordar que não vamos votar no primeiro-ministro. Vamos escolher a composição da Assembleia da República, com todas as implicações que a distribuição de forças terá. Escolhemos quem nos representará, num exercício autónomo em relação ao poder executivo.

Sendo certo que o número de deputados de cada partido é determinante não apenas para a formação de governo, mas também para o eventual alinhamento de bancadas, o poder político de um partido não se esgota no número de eleitos. Quando a aritmética não chega (e nestas eleições pode não chegar), a força negocial depende da expressão conquistada a nível nacional. E todos os votos contam nessa soma, mesmo os que alegadamente não serviram para nada.

O cálculo da subvenção pública repartida pelas candidaturas tem por base, na sua maior fatia, a proporção dos votos validamente expressos. Cada voto, seja em que círculo for, dá corpo a este financiamento. Logo, ajuda à sustentabilidade e por vezes ao crescimento dos pequenos partidos.

O que significa, numa visão de médio prazo, ajudar à estabilização e capilaridade dos partidos fora dos centros urbanos, contribuindo para uma diversidade democrática que é sempre salutar.

Claro que há quem considere a estabilidade um fim em si mesmo. Para esses, tudo deveria resumir-se a um dérbi futebolístico, discutido entre dois candidatos, sem espaço para franjas. Mas a estabilidade é um mero instrumento para o desenvolvimento de políticas que sirvam os interesses do país. Não tem de nascer necessariamente de maiorias claras, mas de compromissos sérios. Não é valor que se exija como imperativo essencial, ou que se peça com arrogância. O voto é dos eleitores e é deles a decisão sobre o que julgam ser mais útil para o país.

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