Não preciso de Rui Rio para me dizer o que é patriótico ou não

Rui Rio expressou a ideia de que críticas ao Governo num momento tão especial e extraordinário como o combate a uma pandemia como que configuram um gesto antipatriótico. Essa é uma ideia desadequada, perigosa e é um péssimo guião para uma oposição séria, forte e responsável numa democracia liberal.

É evidente que o combate a uma pandemia é um combate que nos une a todos, porque todos precisamos de sair disto o mais depressa possível, e ninguém conseguirá fazê-lo sozinho. Todos queremos que isto corra bem. Mal seria se houvesse quem quisesse que isto corresse mal. O país inteiro, do Governo à oposição, dos sindicatos às confederações, do setor social ao setor privado, a mobilização deve ser geral - o que cria um espaço favorável ao entendimento, ao consenso e à união, um espaço que tradicionalmente não existe em tempos ordinários.

Mas isso não significa que não exista, ou que não deva existir, espaço para a crítica, para a denúncia, para a revolta, para a proposta, para a alternativa.

Era o que mais faltava, que um autarca não pudesse queixar-se de falta de meios no seu concelho. Era o que mais faltava, que profissionais de saúde não pudessem denunciar falta de equipamentos. Era o que mais faltava, que empresas não pudessem queixar-se dos atrasos nos apoios anunciados. Era o que mais faltava, que a comunidade científica não pudesse revoltar-se com a falta de acesso aos dados e conhecimento necessários para que esta possa colaborar com propostas. Era o que mais faltava, que sindicatos e trabalhadores não pudessem denunciar inações do Executivo. Era o que mais faltava, que populações não pudessem queixar-se do que entendem que corre muito mal. Era o que mais faltava, que a comunidade científica, académica e política não pudesse contribuir com estratégias alternativas. E era o que mais faltava, que os partidos políticos não pudessem dar conta de tudo isto, por mais certos ou errados que estejam.

É bom lembrar que estamos perante um vírus que ainda não conhecemos bem. Os países estão a tomar medidas drásticas, radicais, muitas delas inéditas, sem que ainda se conheçam as suas consequências. A margem de erro, neste desconhecimento que é global, existe e não é pequena. É por isso que precisamos de oposição e debate e contraditório: estamos todos a viver isto pela primeira vez, e todas as ideias têm espaço, todos os contributos são necessários, para evitar erros, para fazer melhor, ou até mesmo para confirmar que o caminho é o correto.

Não é por acaso que os países vão modelando, alterando, afinando as suas estratégias. É porque estamos a enfrentar o desconhecido. Portugal não é exceção, e é isso que justifica que as nossas autoridades já tenham mudado de ideias, evoluindo. E isso deve-se não ao silêncio, mas ao contraditório, aos alertas. Se nem a comunidade científica pensa toda o mesmo, some-se a isso a comunidade empresarial, sindical e social, e veja-se como o contraditório é inevitável e essencial. E cabe ao Governo, aos políticos, decidir com base nas várias teses e interesses em confronto. É para isso que eles servem. Se não houver confronto, caminharemos alegremente de erro em erro a pensar que estamos a andar de acerto em acerto.

Esta ideia de que criticar o Governo numa altura destas, perante um vírus desconhecido e num espaço com altas margens de erro, é ser antipatriótico é, por isso, uma ideia desadequada.

Mas é também uma ideia perigosa, porque ela presume que um político, um partido, um governo, é intérprete único, exclusivo, autêntico do patriotismo. Ela presume que um discurso, uma narrativa, de um partido é patriótica e a dos outros não é. Ora isto é a negação da democracia, é a antecâmara da falta de liberdades e do condicionamento. Em democracias, não há cá isso de haver partidos que fazem discursos patrióticos e outros que não. A pátria é de todos, não é de ninguém em particular, e não é sobretudo daqueles que usam o patriotismo como argumento político.

Portugal precisa de oposição. E séria e forte. Que esteja atenta ao que faz o Governo de errado, sim. Mas que denuncie a narrativa do Governo quando ela é politicamente motivada. Que aponte as tentativas do Governo de reescrever a História da chegada da Troika. Que evidencie que as políticas dos últimos cinco anos desbarataram a melhor conjuntura dos últimos anos e não só não nos fortaleceram minimamente como vão no sentido errado. Que proponha alternativas à visão socializante da economia deste Governo. Que participe no debate europeu e que force o Governo a negociar melhor e com mais realismo em vez de tiradas mediáticas inconsequentes. Que apresente propostas para o dia seguinte, para a retoma parcial da economia, que tem de ser preparada garantindo a segurança dos trabalhadores. Que esteja a pensar no próximo inverno e nas medidas que teremos de tomar agora para estarmos mais preparados depois. Que denuncie a propaganda, quando ela exista. Que perante uma crise severa explique que o socialismo não é a melhor solução. É para isso que serve a oposição.

Uma oposição calada e compungida não é sinal de patriotismo. É sinal de que é má oposição. E não é assim que se fortalece a democracia.

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