Não, senhora ex-ministra

Senhora ex-ministra: ajude a classe política a não piorar o que está mau. Siga em frente, sim, nem olhe para trás. Mas não fique com um pé lá e outro cá. Não ajuda ninguém.

Vamos lá a distinguir os planos: Maria Luís Albuquerque tem todo o direito a seguir a sua vida, agora que já não está no Governo. Acho que temos, até, de ter especial cuidado com o tema: os políticos em Portugal ganham mal (sim, mal mesmo). Se entendemos também que, depois de serem políticos, têm que ficar parados no Parlamento, à espera que a vida passe, qualquer dia só temos na política quem não merecemos que lá esteja.

Feito o preâmbulo, volto ao ponto de partida: Maria Luís Albuquerque deve ser livre de escolher o seu futuro: se quiser manter-se na política, deve ficar no Parlamento; se quiser dedicar-se à sua profissão, tendo em conta o cargo que teve até há três meses, deve abdicar do lugar de deputada.

Não o digo porque seja ilegal. Olhando para a lei, o facto de ser "não executiva" na Arrow Global provavelmente iliba-a desse ónus.

Mas digo-o, francamente, pelo enquadramento político. Maria Luís Albuquerque saiu há três meses, apenas há três meses, do Governo. A ex-ministra vai para uma empresa estrangeira fazer relatórios sobre "enquadramento macroeconómico", que evidentemente ajudarão a empresa a tomar decisões sobre os seus investimentos por cá (incluindo no caso Banif, incluindo, admito eu, sobre dívida pública e privada do país). E, nos intervalos, assistirá na bancada do PSD às discussões sobre o Orçamento de Costa e as suas consequências, sobre o que ela própria fez ou deixou de fazer no Governo.

E vem agora a pergunta: pode? Poder pode, mas não deve. Terá de ouvir calada, prejudicando a sua função como deputada. Pelo caminho, prejudica o seu partido e cria ruído sobre o debate público (e lá virá a perguntinha do PS, Bloco ou PCP: "E diga lá, sra ex-ministra, o que é que recomendou a sua empresa a fazer"?).

Falando nisso, vale a pena acrescentar um ponto.

Façam um esforço de memória: qual foi a última vez que ouvimos Maria Luís Albuquerque falar na Assembleia? Ajudo: foi depois da operação Banif, quando o Governo anterior estava sob fogo cruzado da esquerda, e em justificação do que fez ou não fez quando estava nas Finanças. Depois disso resguardou-se na última fila, ouvindo todos os debates que a envolvem no mais absoluto silêncio. E aqui chegamos à pergunta chave: se até aqui Maria Luís achou que não devia falar é depois disto que vai querer? E sobre quê? Sobre "matérias de enquadramento macroeconómico e regulatório a nível europeu?".

É por isso que me atrevo a dar um conselho: sra ex-ministra: ajude a classe política a não piorar o que está mau. Siga em frente, sim, nem olhe para trás. Mas não fique com um pé lá e outro cá. Não ajuda ninguém.

P.S. Com este artigo me estreio como diretor da TSF, aqui pelo tsf.pt. Esta que é a minha rádio desde sempre, aquela que me honrou em receber-me de braços abertos. Espero estar à altura da responsabilidade. Pela história dela, por todos os que cá trabalham, mas sobretudo por todos os que a ouvem e a amam, como eu. Até já.

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