O "ambiente de negócios" entre Argélia e Marrocos

Começando pelo fim, não "direi", como se ouve amiúde o Presidente Marcelo dizer, antes digo que está tudo bem, no sentido em que os sinais e actos que "transpiram para o exterior" da picardia diplomática entre os dois países, significam que não se avançará para uma guerra directa entre os dois vizinhos rivais, como muitas vezes muitos pintam. Recordo um jantar, para o qual apenas tinha sido convidado para tomar o aperitivo com um dos convivas, para acertarmos umas direcções, relativamente a uma campanha eleitoral que se aproximava e depois pirar-me, já que os assuntos à mesa eram só para serem tratados pelos adultos na sala! Foi precisamente um desses adultos que gritou "Argélia", quando uma das conversas paralelas versou os perigos do islamismo mais próximo. São precisamente estes adultos que mantêm os clichés de há 20 ou 30 anos, não querendo perceber que tudo mudou para além dos seus quintais.

Concretizando, o que a Argélia fez há uma semana, não permitindo à Royal Air Maroc sobrevoar o seu espaço aéreo, para transportar a selecção marroquina de futebol para a CHAN 2022, que actualmente decorre no "hexágono argelino" (com desistência marroquina), é o máximo que a Argélia pode fazer actualmente para melindrar o primo rival. Este episódio de janeiro de 2023, aconteceu no preciso momento em que a POLISARIO realiza o primeiro "congresso de fogo" do actual líder, Brahim Ghali, que luta para se manter na liderança dos independentistas, sem poder de fogo para se impor aos adquiridos marroquinos nas províncias do sul. E a oposição, terá um algum plano credível para as ambições sahraouis, que não se baseie na vontade bélica? Neste impasse, os sahraouis estão como os portugueses. Para quê substituir a actual liderança, se a oposição não demonstra preparação e maturidade para segurar na tocha?

Em segundo, a pirraça da Argélia face à passagem da RAM pelo seu espaço aéreo (Argélia cortou relações diplomáticas com Marrocos em agosto de 2021), compreende-se bem do ponto de vista humano, tendo em conta que o futebol provoca paixões exacerbadas e após o quarto lugar da Selecção de Marrocos no Qatar, estes não se poderiam pavonear acima das cabeças argelinas. Aliás, toda a cobertura mediática argelina durante o último Mundial de Futebol, praticamente ignorou o sucesso marroquino. Uma fraqueza que degenerou em mais uma vingançazinha sem importância para o Mundo!

Em terceiro, sabe-se agora que Argel e Rabat vão disputar a Presidência da União Africana, para o ano de 2024, o que adensa este clima de "nacionalismo competitivo". Este cenário confirma-me a conclusão inicial e uma espécie de oráculo que todos fazemos a cada fim de ano. A luta entre argelinos e marroquinos vai travar-se numa crescente actividade diplomática, reservada, quase invisível, onde ambas as partes não deixarão de colocar armadilhas no caminho, na esperança que a gula do outro provoque uns quantos tiros no pé.

Termino com uma vitória argelina e sahraoui, neste contexto diplomático da alta política e que confirma o que acabo de descrever. Na passada quinta-feira 19, o Parlamento Europeu condenou Marrocos pela primeira vez nos últimos 25 anos, sob questões de Direitos Humanos, mais especificamente liberdade de imprensa e libertação de jornalistas detidos. Também neste contexto, isto é o máximo que a União Europeia pode fazer relativamente a Marrocos, o envio destes sinais. Marrocos e Argélia são dois pilares norte africanos para a segurança europeia e também nos interessa que estes pilares destilem a sua relação amor-ódio "na secretaria" e nunca avancem para vias de facto, profundamente disruptivo de África, do Mediterrâneo e da Europa!

A Acontecer/A Acompanhar

- 30 de janeiro a 17 de fevereiro, candidaturas para a 21.ª edição do programa de estágios curriculares - PECMNE - referente ao 2.º semestre letivo 2022/2023.

A embaixada de Portugal em Rabat participa neste programa e lança o desafio de conhecer o mundo da diplomacia portuguesa e dar início ou reforçar a experiência profissional no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Um estágio PECMNE na Embaixada de Portugal em Rabat proporciona uma experiência intensa e enriquecedora a todos os níveis, num país vizinho de Portugal, com uma história e cultura milenares.

Os estágios podem ter início a 15 de abril de 2023, com duração de 3 ou 6 meses, ou a 15 de julho de 2023, com duração de 3 meses.

Estamos disponíveis para quaisquer esclarecimentos através do endereço eletrónico rabat@mne.pt;

-04 de fevereiro, 17h, o Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves (CELAS) inaugura uma exposição de pintura intitulada "Bordar o Sereno", de Sara Domingos, na Casa da Cultura Luso-Árabe e Mediterrânica, Largo da República em Silves. Patente até 5 de março.

Raúl M. Braga Pires, Politólogo/Arabista, é autor do site www.maghreb-machrek.pt (em reparação) e escreve de acordo com a antiga ortografia.

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