O astrolábio e a coleira do escravo - "este preto é de Agostinho de Lafetá"

Ouvi e vi Fernando Alves ao vivo e pela primeira vez há cerca de 10 anos. Ele apresentava o livro "Tanto Mar", de Pedro Adão e Silva e João Catarino. O livro era sobre uma viagem a bordo de uma carrinha pão de forma pelas praias de surf de Portugal continental. Ouvir e ver Fernando Alves, era como estar na magia da rádio, com ouvidos e vista privilegiada para o repórter-contador de histórias.

Fernando Alves está a recriar outra viagem, a "Viagem a Portugal" de José Saramago aqui na TSF. Por estes meses o repórter, como ele a si se refere, segue os passos do viajante, como Saramago a si se referia.

Por alturas de Óbidos, o viajante Saramago refere uma coleira que terá pertencido a um escravo. Fernando Alves vai encontrar essa coleira no Museu Nacional de Arqueologia.

"Este preto é de Agostinho de Lafetá" diz a inscrição da coleira que nos recorda um lado grave que a História de Portugal protagonizou e que não podemos não aprender com ela. O repórter dá-nos, entre tantos Sinais, mais este que não podemos desperdiçar.

Vivemos num mundo polarizado, de absolutos e nadas que causam polémicas suportadas muitas vezes em mentiras. No Parlamento ouvimos dizer que todos os migrantes querem viver à custa dos outros. Quem o disse, mentiu. Não querem. Em Portugal os dados são evidentes. Além de muitos trabalhos em Portugal serem já quase apenas feitos por imigrantes, o impacto financeiro do seu trabalho a favor do país, na economia e na sustentabilidade do Estado Social, é bastante positivo. O mesmo ao contrário, quando somos nós os emigrantes, lá fora, damos muito a ganhar aos países para onde emigramos.

Este mundo de narrativas extremas e falsas precisa de História, precisa de ver o lado melhor, mas também o pior de cada coisa. Precisa de ver os factos. Precisamos todos.

Os descobrimentos portugueses da idade moderna, marcaram o mundo nessa redescoberta de continentes só possível graças à coragem dos marinheiros e ao desenvolvimento científico e náutico sem precedentes à altura. Na minha visão de arqueólogo, tudo isto é de louvar, lembrar e celebrar! Como em tudo, a seguir vieram coisas muito boas, a seguir vieram também coisas muito más. Uma delas o tráfico de seres humanos, legal na época e com nome de escravatura.

Precisávamos de falar de tudo isso, mostrando o bem e o mal. Precisávamos de um sítio que colocasse em lugar de destaque permanente e lado a lado um astrolábio maravilhoso e uma coleira infame de um escravo.

Precisamos de conhecimento profundo, distanciado, apaixonadamente desapaixonado, como se todos fossemos arqueólogos e sem qualquer enviesamento.

Se não tivermos uma memória coletiva justa, andaremos em círculos, repetiremos os erros do passado porque não os reconheceremos. Quem sabe até lhes abrimos portas, compramos-lhes gás e petróleo, talvez até votemos neles.

Nestas férias, se tiver esse direito ou privilégio, não se esqueça de visitar museus, de ir a lugares de História, de pensar esse percurso da humanidade desde há milhões de anos no Vale do Rift em África até aos dias de hoje.

Pense nas coisas maravilhosas que como humanidade conseguimos, mas pense também nos conflitos, na ganância, no aproveitamento e pisar de seres humanos por outros seres humanos.

Ao vermos tudo isto com as lentes dos direitos humanos, tenho a certeza que concordará que a dignidade humana é o que mais importa hoje e que quem a pisa, não nos merece tempo. Nem o nosso, nem o da História.

Desejo-lhe um bom verão. Até setembro.

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