O Bloco não se leva a sério

Tudo o que agora defendem, bem diferente de muito do que viabilizam, serve apenas para preparar o terreno para o dia em que tiverem de romper com a coligação parlamentar.

O Bloco de Esquerda (BE) vai aprovar uma moção de estratégia na Convenção de junho que não pode ser para levar a sério. Se fosse ou a coligação das esquerdas caía de imediato ou o país dificilmente sobreviveria "à desobediência à austeridade e à desvinculação do Tratado Orçamental" que propõem os bloquistas.

Na linha do que tem sido o seu apoio ao governo do PS, Catarina Martins e os principais dirigentes do BE insistem em manter um discurso político que em nada tem correspondência com a governação socialista. Dizem uma coisa e viabilizam outra bem diferente. Não podia ser de modo diferente? Podia. Bastava que o Bloco não carregasse na utopia, defendendo o que sabe ser impossível de acontecer. Diz que, para vencer a austeridade (que nos vendem como estando ultrapassada), é preciso uma nova estratégia para o país e define a reestruturação da dívida pública e a nacionalização da banca como prioridades.

Bem sabemos que esta moção de estratégia serve para mobilizar internamente o partido, mas haverá um tempo em que o eleitorado do Bloco se vai questionar sobre a tática que segue a direcção. Tudo o que agora defendem, bem diferente de muito do que viabilizam, serve apenas para preparar o terreno para o dia em que tiverem de romper com a coligação parlamentar. Mas tanto gritam "ai o lobo, ai o lobo", que quando o lobo aparecer haverá pouca gente a acreditar.

A tese de que existe uma grande coerência em defender uma coisa e aprovar outra, porque cada um tem o seu espaço de afirmação e quem governa é o PS, só tem um defeito: o que conta na vida das pessoas é a vida que elas levam, determinada pela prática política, e não a vida com que querem que elas sonhem, determinada pela retórica partidária.

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