O cientista Ventura denuncia o populismo do político Ventura

O currículo académico de André Ventura e as suas tomadas de posição enquanto político e deputado foram o tema trazido por Daniel Oliveira ao espaço de opinião que tem, às terças-feiras, na TSF.

"É quase impossível não notar a contradição" entre o discurso político e a tese que o académico apresentou, em 2013, na Universidade de Cork, na Irlanda, dedicado ao tema das políticas antiterroristas depois de 2011 e o aproveitamento político do medo para "retirar garantias aos cidadãos e impor políticas securitárias", que Ventura "deplorava".

Uma investigação do Diário de Notícias estabeleceu o contraste - que Daniel Oliveira diz ser "abissal" - entre o que está na tese e o que é defendido, hoje, pelo deputado e líder do Chega.

Em 2013, o cientista Ventura estava preocupado com a "expansão dos poderes policiais". O político Ventura criou um partido que "se assume, no seu programa, como securitário".

O académico celebrava "o facto de termos sido dos primeiros países a acabar com a prisão perpétua", enquanto o político defende a "reintrodução da prisão perpétua".

André Ventura era "contra o registo dos abusadores sexuais", o político é "a favor de algo um bocadinho mais leve, que é a sua castração química".

O académico André Ventura acusava a polícia do Reino Unido de "discriminação", depois dos ataques que o território sofrera, baseada em "preconceitos de raça, religião e racionalidade" que considerava "superficiais" por associarem uma religião ao terrorismo. O político defende a "redução drástica dos islâmicos na União Europeia".

Daniel Oliveira resume estes pontos: "Digamos que o académico André Ventura é o anti-Ventura da política."

Opinião vs. Ciência

André Ventura defendeu-se das diferenças assinaladas justificando que distingue muito bem a diferença entre opinião e ciência. Daniel Oliveira parte dessa mesma justificação para notar que o académico André Ventura destaca Portugal como "um dos países mais seguros do mundo", enquanto no programa política fala de um país em "insegurança crónica".

"Como só há um Portugal - não há um Portugal científico e outro Portugal político - das duas, uma: ou o académico André Ventura mentiu na sua tese, ou o político André Ventura mentiu no seu programa", nota o comentador e jornalista.

O líder do Chega garante que se referia a dados analíticos quando falava de um Portugal seguro e de uma questão de perceção ao falar de "insegurança crónica". Daniel Oliveira nota que "um político sério baseia-se em dados e um demagogo baseia-se na perceção".

Na sua tese, André Ventura escreve que "o populismo penal resulta do processo pelo qual os políticos aproveitam e usam, para sua vantagem, aquilo que creem ser a generalizada vontade punição pública". Daniel Oliveira atira que, além de esta ser a definição de "populismo penal", é também "a maior definição, feita pelo académico André Ventura, do político André Ventura".

Perante estas diferenças, o comentador da TSF considera que André Ventura "acha que os eleitores não merecem o rigor que merecem os seus pares, os académicos. Na realidade, despreza-os".

"Não move André Ventura nenhum valor, não acredita em nada do que diz", remata.

A reação do público

Daniel Oliveira assume que a reação do público é "assustadora". Partindo do paralelismo tantas vezes feito entre André Ventura e o Benfica, o comentador da TSF alerta que se o político aparecesse "com um cachecol do Sporting Clube de Portugal ou do Futebol Clube do Porto, se indignariam".

No entanto, e uma vez que esta é uma questão política, as pessoas "parecem estar-se nas tintas". Há queixas de que esta "é uma perseguição a André Ventura" e há mesmo quem lembre que "há piores do que ele".

A este argumento, Daniel Oliveira responde que, dessa forma, mostram que o voto em André Ventura "não foi de exigência política". É "votei no meu aldrabão e agora defendo o meu aldrabão".

A quem defende que André Ventura tem "o direito de mudar", o comentador responde que esta é uma tese entregue em 2013 e "do ponto de vista de timing académico é de ontem, tão de ontem que ainda não é pública, a não ser na Biblioteca Nacional". Sê-lo-á "em 2022".

Por último, Daniel Oliveira recorda o episódio em que Donald Trump disse que, se desse um tiro a alguém na 5.ª Avenida, seria eleito na mesma, falando de um "fenómeno assustador e interessante". Citando Mark Twain, "é mais fácil enganar uma pessoa do que convencê-la de que foi enganada". E essas pessoas preferem "manter-se enganadas".

*Texto redigido por Gonçalo Teles

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