O circo e o palhaço racista

André Ventura sugere devolver "ao país de origem" Joacine Katar Moreira, que por sua vez quer devolver às ex-colónias bens culturais dos nossos museus que lhes pertençam. Francisco Rodrigues dos Santos quer devolver ao CDS a posição de partido que não caiba no táxi, mas sem ter Joacines e a tentar não se aproximar muito do Chega. Que, entretanto, também tem afastamentos a fazer e se demarca da saudação nazi feita por um participante no jantar do partido no Porto.

Parece anedota, mas é o resumo das últimas horas no país político dos pequenos, que vai mostrando poucos motivos para graças. Na semana em que o Orçamento do Estado está no centro dos trabalhos parlamentares e questões como a redução do IVA na eletricidade, que tanta importância tem no bolso dos portugueses, merecem estar no centro das atenções, os casos e quezílias vão dominando. E o arranque da nova liderança do CDS mostra o quanto o partido está efetivamente encostado ao campeonato dos pequeninos.

Em outubro, os portugueses escolheram o Parlamento com o maior número de partidos que já tivemos. A diversidade e o surgimento de novos projetos são, em teoria, sinal de vitalidade democrática e de alargamento das opções e formas de participação dos cidadãos, mas o caminho que tem sido feito mostra bem o quanto a afirmação e consolidação de novos projetos partidários é complexo e lento.

Haverá, ainda assim, alguma coisa boa a retirar deste circo? Por contraditório que possa soar, a afirmação racista, intolerante e completamente intolerável de André Ventura acaba por ter uma vantagem. Se até há pouco o deputado do Chega tentou usar de um tom manso e negar que seja extremista, xenófobo ou nacionalista, deixá-lo falar à vontade é a melhor forma de mostrar claramente quem é e as pessoas que abriga no partido. A saudação nazi vista durante o hino nacional não é um acaso de que Ventura possa realmente demarcar-se. É uma consequência do que o Chega defende e dos ódios de que se alimenta.

Quando chegou ao Parlamento, em outubro, André Ventura causou evidentes incómodos e tem sido difícil, no hemiciclo e fora dele, decidir a melhor forma de não dar lastro à extrema-direita. O silenciamento ou a minimização dão-lhe motivos para se vitimizar. Deixá-lo falar à vontade permite que não restem dúvidas nem ambiguidades em que os seus apoiantes possam escudar-se.

Um voto de condenação, como propõe o Bloco de Esquerda, poderá não ter grandes efeitos práticos ou pedagógicos, mas será importante para mostrar que os discursos de ódio e de intolerância são inadmissíveis em quem representa a nação. E de nada vale argumentar que o comentário de Ventura é feito fora do Parlamento, porque o deputado continua a sê-lo nas redes sociais, por maioria de razão comentando propostas de outros deputados. Palhaços e racistas há infelizmente muitos, mas quando chegam ao Parlamento só podemos ser muito claros no combate.

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