O Dakar em modo saudita

Uma das grandes tendências a nível internacional é a sobreposição do desporto, das competições com os países ricos em recursos energéticos.

Os exemplos mais óbvios são os clubes e os patrocínios no mundo do futebol vindos de países como a Rússia, o Qatar ou os Emirados Árabes Unidos.

Esta tendência é cada vez mais abrangente e vai incluindo países que, embora ricos em petróleo ou gás natural, não olhavam para o desporto, para as competições como úteis à sua política externa, à sua imagem no mundo. Um desses países, a Arábia Saudita, com cerca de 35 milhões de habitantes, tem nos últimos tempos deixado uma marca cada vez mais forte. O interesse é tanto que levou este país a assumir-se como anfitrião de várias competições. Neste espaço de Opinião já vos trouxe o interesse saudita pelo futebol ... feminino (é mesmo verdade).

Mas, a Arábia Saudita tem sido capaz de ir além do futebol e atrair competições tais como o Dakar (ou Paris-Dakar). Este rali é, de facto, uma competição cuja fama e prestígio ultrapassa fronteiras, embora, nos dias de hoje, nem Paris, nem Dakar façam parte do seu roteiro. O lema do seu fundador, o francês Thierry Sabine, diz-nos tudo sobre a mística desta competição: "Um desafio para os que vão. Um sonho para os que ficam."

Esta vontade de fazer diferente levou a vários percursos e mudanças, por exemplo por razões de segurança.

Desde a primeira edição no final da década de setenta que o Dakar se tem vindo a adaptar aos tempos e às geografias europeia, africana, na América Latina e na Arábia Saudita.

Mas não são só as paisagens que mudam, mas também os limites que se vão testando em termos de tecnologia e de resistência do material.

Quem diria em 1979 que seria possível, que seria imaginável termos no Dakar camiões movidos a hidrogénio ou carros eléctricos?

Do ponto de vista saudita, é claramente uma vitória de relações públicas. Basta uma visita ao site oficial para entrarmos em contacto com a (ou pelo menos, uma) Arábia Saudita.

Uma fotografia sem mácula, moderna e aberta. Se não pensarmos nos direitos humanos, claro está.

Essa é uma dimensão que vai continuar de fora em muitas destas competições desportivas. E se tivesse de escolher um exemplo desta triste realidade seria a organização do próximo Campeonato do Mundo de Futebol no final deste ano no Qatar.

Por isso (e infelizmente), ao longo deste ano, voltaremos à tensão entre direitos humanos, organização de competições e a política internacional.

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