O Deus dará de um ateu

Começo a escrever à mão, como aprendi há 80 anos - agora não sei se ainda se aprende assim, se se aprende de maneira nova ou se já se voltou a aprender assim - em páginas da minha agenda de bolso deste ano, que vai desde 10 de Novembro do ano passado e por isso tem muita folha virgem. Esperava a minha vez na consulta porque viera adiantado: broncalina do camandro na Nos tornara telefones incapazes de chamar táxis e apanhei um que trouxera uma senhora ao lugar onde estou a viver e ficara livre. O taxista, gordo, simpático, entre sessenta e setenta, a pergunta minha respondeu que continuava a haver muito turismo mesmo com o verão acabado.

Ouvira as cuidadoras que ajudaram a passar-me da cadeira de rodas para o lugar do morto no táxi - um Citroën, que não têm pega alta à direita para nos dar jeito à saída, observara eu - e quando traváramos conversa tratou-me por Senhor Embaixador. Lembrei-me do PREC de que a leitora terá idade ou não para se lembrar também mas de que, se não tiver, terá ouvido falar. Numa tarde do Verão de 1975, em esplanada lisboeta depois do criado de mesa ter tornado a ser acintosamente malcriado, perdi a paciência. «Se o senhor quiser, eu posso servi-lo aqui às segundas, quartas e sextas e o senhor servir-me a mim às terças, quintas e sábados. Mas, quer num caso quer noutro, o criado tem de ser bem-educado com o cliente e o cliente bem educado com o criado». Rapaz novo, foi-se embora a resmungar coisas ininteligíveis e não piou mais enquanto eu ali estive, nem ao trazer-me a conta. Eram outros tempos: por um lado, havia poucos turistas para animarem o comércio e, por outro lado, políticos profissionais e amadores anunciavam para breve o Paraíso na Terra (escamoteando a passagem por Inferno intermediário, do qual até essa data - e desde então - ninguém metido nessa viagem conseguiu sair).

Abuso burguês típico de quem está na mó de cima, disse-me amigo, à época recentemente convertido à certeza dos amanhãs que cantam, a quem eu narrara o episódio, mas outra gente, incluindo a senhora que explicara «Eu, por acaso, até sou muito pouco contra o 25 de Abril !», achou que bastava de desaforos e que eu tinha carradas de razão.

(De volta ao meu quarto, passo a escrever no computador).

Ao dedilhar o já escrito da agenda para o ecrã voltei a batalhar contra a minha caligrafia. Durante os anos de liceu na Valsassina, em esplêndido palacete na António Augusto de Aguiar (sábio que fora perceptor dos príncipes nos últimos tempos da monarquia - ou teria sido o Joaquim António de Aguiar?) que pertencera ao Conde da Lousã, ainda vivo na altura, sempre impecavelmente vestido e tentando conquistar meninas em carros eléctricos com tal assiduidade que ganhara a alcunha do "xé-xé la femme", não entendia em casa apontamentos que tomara na escola e era o mano João que mos decifrava.

À volta, ouvi música do meu tempo cantada em sala de baixo. Não dos Beatles, leitora. Água fria, da ribeira da grande Beatriz Costa.

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