O futebol, a saúde e o futuro do país

Planear é um verbo que parece estar em desuso em Portugal. Se a pandemia poderia ter sido evitada, como alertaram esta semana os peritos mandatados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), imagine-se o que poderia ter sido acautelado na noite em que o Sporting se sagrou campeão. Segundo os entendidos que compõem o Painel Independente formado a convite da OMS, é urgente fazer vastas reformas dos sistemas de alerta e prevenção para evitar novas pandemias.

O mesmo grupo considera que a OMS demorou demasiado tempo a fazer soar o alerta e que teria sido possível evitar a catástrofe classificada como "Chernobyl do século XXI", que já custou a vida a pelo menos 3,3 milhões de pessoas e provocou uma crise económica mundial. "É claro que a combinação de más escolhas estratégicas e um sistema mal coordenado criaram um cocktail tóxico que permitiu à pandemia transformar-se numa crise humana catastrófica", revela o mesmo relatório. Trata-se de um ataque feroz às autoridades de saúde mundiais.

Os peritos reforçam: demasiado tempo correu entre a notificação de um foco epidémico na China, na segunda quinzena de dezembro de 2019, e a declaração, a 30 de janeiro pela OMS, de uma emergência de saúde pública de âmbito internacional. O grupo de especialistas recomenda o lançamento de um novo sistema mundial de vigilância, baseado numa "transparência total". "Propomos que a OMS passe a publicar em tempo real todas as informações de que dispõe sem a permissão dos governos", explicou Michel Kazatchkine, membro do Painel Independente.

Se tudo isto poderia ter sido evitado, não se compreende como não foi possível acautelar a concentração de adeptos do Sporting em redor do Estádio de Alvalade e da rotunda do Marquês de Pombal. É compreensível a alegria e festejos após 19 anos a aguardar este momento, mas alguém falhou em todo o processo e isso ficou claro pelas imagens televisivas a que todos os portugueses assistiram. A segurança e a saúde ficaram em causa. Veremos os resultados deste aglomerado de adeptos daqui a uma ou duas semanas.

Não estiveram bem os adeptos do clube, nem a polícia, nem o ministério da Administração Interna. Corria nas redes sociais e noutros fóruns a divulgação antecipada desta concentração de adeptos e nada foi feito a não ser, já como último recurso, deitar mãos às balas de borracha. Não planear, não prevenir e não antecipar é um problema crónico em Portugal e que compromete o futuro.

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