O interior não precisa de políticos

Em 2004, Pedro Santana Lopes foi alvo de chacota política por ter decidido deslocalizar algumas secretarias de Estado para outras regiões do país, que não Lisboa. Jorge Sampaio, à época Presidente da República, nem deu tempo para que se abrissem os caixotes todos. Fez cair o Governo de Santana, convocou eleições e... as secretarias de Estado lá voltaram todas para Lisboa outra vez.

Ironias da política, o mesmo Partido Socialista que, há 15 anos, criticou duramente o governo do PSD/CDS faz agora tábua rasa de todos os argumentos que usou e decide seguir as pisadas de Santana. Ignoremos, por uns instantes, a incoerência e concentremo-nos na substância da medida.

Depois da secretaria de Estado da valorização do interior, que já estava descentralizada, há dois novos secretários de Estado que vão migrar: um para a Guarda e outra para Bragança. O secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território, por exemplo, vai continuar em Castelo Branco, instalado no edifício do antigo Governo Civil da cidade - sempre se dá alguma utilidade àquilo -, terá cinco elementos em permanência - uma multidão - e fará "audiências, reuniões e eventos". É o ovo de Colombo. Como é que nunca ninguém se lembrou disto?

A medida tem tanto de demagógica como de patética. Sobretudo quando estamos no século XXI e falamos do mesmo governo que definiu como prioridade política a transição digital. No fundo, é o mesmo que dizer que não há reunião nem audiência tão eficaz como aquelas que são feitas cara a cara. Que, porventura, as teleconferências, as chamadas telefónicas e outras tecnologias da comunicação nunca são tão boas como um encontro no café da praça central da cidade.

Mas é, sobretudo, partir do princípio que o problema de quem vive em Castelo Branco, na Covilhã, na Guarda, em Bragança ou em Vila Real é estar longe de quem os governa. Que, se se cruzarem todos na rua, ou se não tiverem de vir a Lisboa para reunir com o secretário de Estado, os problemas se resolvem mais rapidamente. É um engano. E é, sobretudo, atirar areia para os olhos das pessoas.

Ao contrário do que o Governo quer fazer parecer, o interior do país não precisa que os governantes se mudem para lá. Precisa de gente que lá queira viver. Pessoas que encontrem as mesmas oportunidades de emprego que existem no litoral, que tenham o mesmo acesso à saúde, à educação, à justiça e aos serviços públicos.

O interior precisa que lhe seja devolvida a economia que sucessivos governos permitiram que fosse destruída. Precisa de investimento, de empresas e de começar a ser visto como uma oportunidade e não como um fardo ou uma espécie de parente pobre a quem se vão atirando umas migalhas em forma de benefício fiscal.

O interior do país precisa de deixar de ser o "estrangeiro". Precisa que as autoestradas que nos custaram a todos milhões de euros tenham trânsito e não sejam um roubo para quem precisa de circular nelas. Precisa de um bom serviço ferroviário, que o aproxime do litoral. Porque enquanto for mais caro ir à Guarda do que ir a Madrid ou a Londres, o interior do país, seguramente, vai continuar deserto.

O interior - e, já agora, o resto do país -precisa que se acabe de vez com os pequenos poderes que existem em tantas autarquias, comissões de coordenação, centros regionais e outros que tais, que nada decidem, nada resolvem, mas que criam entropias a quem ainda tem a coragem de querer investir e viver em zonas de baixa densidade populacional. Precisa de uma verdadeira regionalização, de organismos públicos que não sirvam apenas para alimentar caciques, mas que tenham autonomia política e financeira.

O interior precisa de uma nova política e de uma nova economia. Para as empresas e para as pessoas. Porque a política não faz sentido se não for feita a pensar nas pessoas. E isso é coisa que não se resolve criando um novo ministério ou fazendo migrar três secretários de Estado para Castelo Branco, Guarda e Bragança. Resolve-se com uma estratégia de médio/longo prazo, que sobreviva aos diferentes ciclos políticos. O interior não precisa de políticos, precisa de boas políticas. E isso é coisa que ainda não existe.

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