O pântano que sonha ser um deserto

O problema de Portugal é ser habitado por portugueses. Se é que há um problema, porque podemos chegar à conclusão de que, apesar de tudo, Portugal é como a democracia, o pior país do mundo à exceção de todos os outros. Também podemos concluir que, a existir um problema, esse problema não sejam as pessoas, mas os políticos que governam o país ou os empresários que gerem as empresas, só que facilmente descobriremos que os políticos e os empresários são pessoas como nós, com virtudes e defeitos.

Uma virtude pode até esconder um terrível defeito, como aquele que me entrou olhos dentro quando esta semana fui almoçar à praia, trinta graus ao sol, dezenas de pessoas na areia, algumas a tomar banho no mar, dia 19 de outubro, em pleno outono. É um belo cartão-de-visita, mas não deixa de nos fazer pensar na emergência climática e nas longas filas de automóveis em que cada um deles tem um ou dois passageiros lá dentro, apesar do preço dos combustíveis estar pela hora da morte. Quanto pior melhor, seja qual for o ângulo de análise.

Este também é o país que esquece com facilidade os traumas que vive. Passou apenas uma década desde o momento em que nos metemos numa crise sem tamanho por causa de um dívida imensa e essa dívida, seja pública ou de privados, não diminuiu nem um euro. Pelo contrário! Subiu a dívida do Estado, subiu o crédito pessoal e subiu a utilização dos cartões de crédito. Sem problema, agora que os juros estão historicamente baixos, à espera do desastre, assim que eles voltarem a subir.

A crise política, caso se venha a confirmar, pode até ter a vantagem de nos obrigar a parar para pensar. Já não digo pensar no que queremos de estrutural para o país, que isso seria pedir demais, mas talvez seja possível que uma crise política nos obrigue a todos a pensar que estamos a viver em cima do arame e que convém adotar comportamentos mais responsáveis, individualmente, em família, como sociedade. O primeiro passo, para que isso seja possível, é o de considerarmos que quando dizemos mal do país é a nós próprios que estamos a apontar o dedo.

É certo que um mau orçamento pode ser sempre pior que não haver orçamento. É certo que uma negociação implica que todos cedam nalguma coisa. E é certo que estamos todos a assistir a uma crise política que tem tudo para se prolongar para lá das eleições legislativas antecipadas. Afinal, vivemos num pântano desde o início do século mas, agora, que as alterações climáticas ameaçam secar parte do país e que a emigração voltou a ser a melhor hipótese para as novas gerações, talvez estejamos a construir um deserto. Cada um tem o país que merece.

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