O primeiro erro de Biden

As alterações climáticas são a maior ameaça à nossa sobrevivência como espécie. Se no ano 536 um fenómeno climático afundou a Europa, Médio Oriente e partes da Ásia numa escuridão durante 18 meses, matando milhões de pessoas, faltam-nos agora cerca de 12 anos para evitar que um outro fenómeno climático, este induzido pelos próprios humanos, leve a um cataclismo global.

É o tempo que temos para evitar que a temperatura média do planeta suba 1,5º, quando comparada com a temperatura na era pré-industrial.

Apesar do seu histórico como correligionário dos combustíveis fósseis, juntamente com Obama, Biden hasteou o combate às alterações climáticas como uma das prioridades do seu governo. Durante a campanha, o seu longo "Plan for a Clean Energy Revolution and Environmental Justice" incinerou a esperança dos negacionistas e o pessimismo dos ambientalistas.

Na altura, passou despercebida a proposta, contida no documento, de "nomear e envergonhar criminosos do clima". Pareceu um justicialismo meninil. Uma gesticulação eleitoreira. Uma criação autoral de algum assessor. Mas esta semana a imprensa dos EUA, citando como fonte a equipa do presidente-eleito, noticiou que o Brasil pode ser o primeiro país a receber o título de criminoso do clima. A notícia incandesceu a imprensa brasileira.

Se a informação for verdadeira, Biden pode ter cometido um descuido. O eventual gesto do novo presidente transborda de política e carece de ciência.

Apesar de todos as insanidades e desmandos do presidente Bolsonaro na área ambiental, o Brasil ainda tem um perfil majestático nesta área. É um dos países industrializados com menos emissões de carbono per capita (6 vezes menos do que os EUA) e tem 46% da sua matriz energética originada de fontes renováveis (hidroelétrica, eólica, biomassa, biogás e solar) (4 vezes superior à dos EUA).

A incongruência faz lembrar Harry S. Truman. No seu discurso de posse em 1949, o presidente americano defendeu os valores da América: justiça social, igualdade de oportunidades, liberdade de expressão. Mas foram precisos mais 15 anos, com a aprovação do Civil Rights Act em 1964, para se proibir a segregação racial em locais púbicos e a discriminação profissional baseada em raça, religião e género.

A iniciativa de Biden é sobretudo politiqueira. Aliados dos EUA, como os Emirados Árabes, Austrália, Canadá ou Arábia Saudita, que estão entre os maiores emissores de carbono per capita e, por isso, seriam potenciais candidatos a "criminosos do clima", não foram mencionados pela equipa de transição de Biden. Bolsonaro, por pirraça, ainda não reconheceu a vitória de Biden. E o presidente eleito aproveitou uma oportunidade para se demarcar ideologicamente.

A politização das "alterações climáticas" no século XXI - tal como a instrumentalização da "liberdade", da "fé" ou dos "direitos humanos" para justificar tantas hostilidades ao longo do século XX - transforma um risco existencial, que deveria gerar uma ação coletiva, num engenho individualista de política externa. Se usada como um farrapo que se ensopa, torce e estende, de acordo com os asseios de cada um, a sustentabilidade do planeta dificilmente contará com os recursos globais necessário à sua proteção.

A iniciativa de Biden também não deve afetar o interesse de capital estrangeiro pelo Brasil. Os investidores tradicionais continuarão a alocar capital no país desde que faça sentido do ponto de visto do retorno/risco. Ser considerado um "criminoso do clima" não vai deixar esses investidores emocionados. Por outro lado, investidores ESG, mais sensíveis a temas ambientais, apoiam-se em dezenas de métricas especializadas e estudos técnicos. Um ato político do governo americano não deverá sobrepor-se à análise rigorosa que esses investidores costumam adotar.

Aliás, a criminalização de países, seja por razões climáticas ou de outra índole, tem que ser feita por organismos independentes e internacionais, não por outros países. Teria sido mais vantajoso se Biden apoiasse a possibilidade de o Conselho de Segurança da ONU adotar medidas coercitivas contra os países que sistematicamente violam acordos internacionais de prevenção às alterações climáticas.

O Conselho de Segurança discutiu formalmente a ligação entre alterações climáticas e riscos globais em 2007, 2011, 2018 e 2019. Na discussão de 2011, quando Biden era vice-presidente, a Embaixadora americana na ONU, Susan Rice, fez um discurso galopante onde exortou os seus colegas para que o Conselho de Segurança assumisse, de uma vez por todas, as suas responsabilidades na prevenção das alterações climáticas. E, em linguagem pouco habitual, admoestou os membros do Conselho que se opuseram à geração de um consenso em torno dos riscos climáticos globais e criticou o órgão por aceitar o silêncio: "that is more than disappointing; it is pathetic, short-sighted and, frankly, a dereliction of duty."

Biden deveria ser menos Truman e mais Rice. Ou mais Cosroes I, xá do Império Sassânida e líder da maior potência mundial durante o cataclisma de 536. Com uma base doméstica frágil e herdando um país dividido, empenhou-se em criar uma aliança com o Império Bizantino, os seus maiores adversários na Europa e Ásia, para repelir ameaças comuns.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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