O princípio do futuro?

Como alguém tem de pensar no futuro - leia-se, sustentabilidade - do futebol português num contexto (irreversível) de globalização, a Federação e a Liga têm promovido encontros com os presidentes dos clubes para se tentar chegar a algum lado. É um bom princípio.

No último encontro foi apresentado um estudo da consultora McKensey, cujas ideias fortes o jornal Record divulgou este fim de semana. Com dados de 2017, não se pode dizer que haja enormes novidades no diagnóstico, pois já tínhamos consciência, por exemplo, de que a nossa Liga é, entre as dez principais da Europa, a mais dependente das receitas da UEFA. E de longe.

Daí que a recuperação do sexto lugar no ranking da UEFA tenha sido um passo crucial, embora mantê-lo seja o grande desafio que agora se coloca. Diz o estudo que isto "exige o desenvolvimento de 8-9 equipas capazes de competir na Europa e implica um aumento de receita de cerca de 360 milhões de euros".

Ora, criar equipas mais niveladas por cima passa necessariamente por alterações profundas da realidade vigente, a começar pela introdução da centralização de direitos. De resto, Portugal é o único caso entre as principais ligas europeias onde isto não existe. Quer dizer, entramos logo a perder.

Como tal objetivo só pode ser alcançado em pleno a partir de 2028 (FC Porto, Sporting, V. Guimarães e Rio Ave têm contratos em vigor até lá), espera-se que um consenso seja obtido entretanto para possibilitar uma agregação gradual. É que os direitos internacionais não são explorados e a centralização é meio caminho andado para sairmos do zero atual.

Depois há a questão do número de jogos por época (que divide opiniões sobre o futuro das Taças ou o número de clubes no campeonato), a proteção às equipas do campeonato que estão nas provas da UEFA (que os clubes aprovaram, desaprovaram e querem aprovar outra vez), a reconversão do funcionamento da II Liga, a revisão do sistema de empréstimos, o incremento da formação e por aí adiante. No fundo, isto significa que está quase tudo por fazer.

Sim, tudo aquilo é vital para um salto qualitativo, porque fingir que a Liga portuguesa está num patamar de excelência é uma péssima ideia. Sobretudo depois de constatarmos que os três grandes têm receitas televisivas mais de 15 vezes superiores às de todos os outros.

Muito provavelmente, a generalidade dos adeptos até achará isto ótimo, mas o facto de Portugal ser um exemplo único em toda a Europa neste capítulo, só serve para demonstrar que somos nós quem marcha no sentido errado da formação.

E já que estamos com a mão na massa, permitam-me acrescentar só umas pequenas contribuições para juntar à lista de tarefas que o futuro nos reserva.

A revisão (a sério) dos regulamentos disciplinares, a exigência com o funcionamento da arbitragem (o VAR não é a salvação da pátria), os horários dos jogos, as infindáveis paragens do campeonato, os preços dos bilhetes ou as condições dos relvados são somente algumas das múltiplas situações que poderiam ser resolvidas se os clubes estivessem para aí virados. Já para não falar da guerra civil comunicacional que é individualmente apelativa, mas coletivamente suicida.

Chegados aqui, começam as dúvidas. Este confesso cético militante interroga-se se não estaremos a viver um sonho dentro do sonho, porque enquanto se conversa é uma coisa, quando for preciso agir é outra.

Quando Edgar Allan Poe escreveu o "Dream within a dream" ainda nem tinham sido adotadas as regras básicas do futebol, mas a ideia de que "Tudo aquilo que vemos ou nos parece / Nada mais é do que um sonho dentro de um sonho" encaixa que nem uma luva na ilusão de ver os protagonistas que criaram o atual "estado das coisas" em..."outra coisa".

Apesar de tudo, tenham esperança. Mas não se empolguem.

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