O PS tem lá pequenos Sócrates, vai mudar o quê?

O Partido Socialista deve a si próprio um processo de catarse e o melhor momento para trazer à consciência recordações recalcadas sobre o período em que José Sócrates liderou o partido é o congresso previsto para julho deste ano, não é a reboque de uma decisão de um tribunal que não o condena, nem o iliba.

É, no entanto, muito duvidoso que o PS faça esse "mea culpa" num momento em que quer lançar uma campanha para manter hegemónico o poder autárquico. O instinto de sobrevivência impele a máquina partidária a empurrar o lixo para baixo do tapete ou a enfiar a cabeça na areia sempre que se descobrem factos novos que possam envergonhar as escolhas que os mais altos dirigentes e os mais simples militantes fizeram a cada momento. Incluindo agora, em que no governo e no partido há personagens que em tudo, ou quase tudo, se assemelham ao que Sócrates era quando lhe deram uma pequena fatia de poder.

Já o PEC 4 estava chumbado e o país à beira da bancarrota quando Sócrates conseguiu 93,3% dos votos dos militantes, resultado melhor que o conseguido em 2009, já depois também de muito se ter escrito sobre as suspeitas no caso Freeport. Desde sempre, a forma prepotente como Sócrates liderava o partido e governava o país estavam à vista de todos e não incomodava a grande maioria dos dirigentes e militantes socialistas, simplesmente, porque se traduzia em poder que tocava a todos.

O ataque de Fernando Medina e o contra-ataque de Sócrates, seguidos pela procura de Ana Catarina Mendes de colocar alguma água na fervura estão muito longe de sintetizar a conversa no divã que Ana Gomes diz que o seu partido tem de fazer.

Não estando terminado, havendo que manter a presunção de inocência até que Sócrates esteja eventualmente condenado, é já absolutamente certo que o ex-primeiro-ministro, ainda no exercício de funções, vivia muito acima das suas possibilidades com centenas de milhar de euros que um amigo lhe fazia chegar.

Pedro Delgado Alves põe o dedo na ferida, a mentira sobre a fortuna que o ex-líder do PS ia esbanjando à vista de todos os que com ele conviviam é responsabilidade de Sócrates, mas não iliba o partido para a eternidade. Ele contou uma mentira sobre a fortuna da mãe e isso o PS não podia saber, mas sabe agora e precisa de fazer a tal catarse. Viveram bem com a prepotência do líder e não o deviam ter feito, mas não revela coragem nenhuma dizer agora o que se calou por cobardia noutra altura. É a si próprios que os socialistas têm de criticar e, se querem garantir aos portugueses que o PS não voltará a servir de elevador para os pequenos Sócrates, então tem de nos mostrar com clareza o que é que está a fazer para que isso não aconteça.

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