O que aconteceu aos valores olímpicos

Muitos de vós terão ouvido falar, nos últimos dias, do caso que envolve a tenista chinesa Peng Shuai. A tenista, uma das estrelas do circuito internacional de ténis, deixou de ser vista em público após ter acusado, numa rede social chinesa, um ex-vice primeiro-ministro chinês de a ter violado. O que escreveu foi imediatamente apagado e a tenista desapareceu. Perante o clamor internacional e o protesto de inúmeras tenistas, governos e organizações não-governamentais, um jornal, controlado pelo governo chinês, divulgou fotos da atleta e um comunicado, alegadamente escrito por ela, em que esta dizia estar bem. Sendo impossível apurar a veracidade da notícia ou sequer se a atleta estaria em condições de falar com liberdade, isso não diminuiu os protestos internacionais. Sucederam-se os apelos ao boicote dos Jogos Olímpicos de Inverno que irão ter lugar na China em Fevereiro.

Esta situação tornou-se também embaraçante para o Comité Olímpico Internacional. Este já estava sobre forte pressão por ter escolhido a China para acolher os jogos olímpicos, atendendo às preocupações com a evolução dos direitos humanos no país. Se é legítimo defender que não se deve confundir a política com o desporto e que a realização das olimpíadas até pode ajudar a promover os direitos humanos e a abertura desses regimes é, igualmente, legítimo defender que a atribuição dos jogos olímpicos devia depender de um compromisso claro dos Estados candidatos com os direitos humanos, sob pena de os jogos poderem servirem apenas para legitimar e reforçar esses regimes. Seja como for, o que é claro é que o mínimo exigível ao Comité Olímpico Internacional é que intervenha e atue quando está em causa o bem-estar e a liberdade de uma atleta olímpica nesse país. Perante isto, se o silêncio do Comité Olímpico Internacional já era preocupante, a comunicação que fez ontem sobre este caso é, não há outras palavras, vergonhosa. O Comité Olímpico Internacional veio afirmar que a atleta está bem e tranquila, de acordo com uma videochamada que terá feito com o presidente do Comité Olímpico Internacional. Ora, não há forma de o COI, e o seu presidente, saberem se a atleta estava a falar em liberdade e sem qualquer condicionamento. O próprio COI comportou-se de forma condicionada ao, aparentemente, não ter discutido com ela o seu direito a ver a acusação de violação plenamente investigada. O COI veio, na prática, fazer aquilo que o jornal "oficial" chinês não tinha conseguido fazer... O presidente do COI ainda acrescentou que a tinha convidado para jantar em... Pequim (podia, pelo menos, ter feito o convite para que se encontrassem noutro país, mas se calhar temia a resposta a essa pergunta). Isto é aquilo que em inglês se chama de juntar o insulto à ofensa física.

O comportamento do COI neste caso demonstra o quanto este se afastou dos valores fundadores do ideal olímpico. A verdade é que os negócios que as olimpíadas envolvem são demasiado importantes para que esses valores prevaleçam. Estes eventos desportivos envolvem milhares de milhões de euros, decididos com enorme opacidade por um grupo de pessoas que reclamam representar-nos a todos sem que saibamos, no entanto, quem são ou como são realmente escolhidos e nem tenhamos qualquer mecanismo efetivo de escrutínio. São frequentes os conflitos de interesses sem haver qualquer forma eficaz de os prevenir ou punir.

O presidente da Organização Mundial Contra a Dopagem escandalizou muitos quando disse que pelo menos 25% do dinheiro envolvido hoje no desporto está relacionado com atividade criminosa. Isto não é surpreendente quando se juntam grandes volumes financeiros a atividades e organizações sem efetiva regulação. O que é surpreendente é que isto continue a ser tolerado. Esta semana o Parlamento Europeu discute mais uma resolução sobre o Desporto. Nela defende-se um reforço do papel da União Europeia e alerta-se para os vários problemas conhecidos na qualidade e integridade do governo das organizações desportivas, mas não se é consequente com os problemas identificados. Mais uma vez, os deputados europeus limitam-se a "encorajar" essas organizações a reformarem-se. O Presidente do COI agradece.

Quanto mais destes escândalos iremos continuar a aceitar até finalmente fazermos algo para impor um mínimo de escrutínio e boa governação nestas organizações desportivas supranacionais?

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