O que é informar

Há dias circulava um vídeo de um comentador (ou analista) televisivo militar que dizia que tinha uma fonte que colocava em causa a autenticidade do ataque russo ao porto de Odessa no dia seguinte ao acordo entre a Ucrânia e a Rússia sobre o comércio dos cereais que se encontram nesse porto. Na sequência dessa revelação o jornalista pergunta-lhe, não sobre a credibilidade dessa informação, mas sim sobre a gravidade que essa informação comportava: que significado podia ter se se tivesse tratado afinal de uma ação (ou invenção) ucraniana.

Nenhuma fonte internacional credível, jornalística ou outra, colocou em questão a autenticidade e origem russa do ataque dando qualquer credibilidade a tal tese alternativa. Mas essa alegada fonte de um comentarista permitiu que se discutisse o tema como se existisse informação credível de que afinal poderia ter sido um ataque da Ucrânia contra si mesma.

A razão porque falo deste caso não tem tanto a ver com a guerra da Ucrânia, mas sim para alertar para uma tendência global de confusão sobre a natureza da informação e comentário. Em princípio, a função de um comentador ou analista é aquela de comentar os factos tal como eles resultam da informação jornalística. Comentador comenta, jornalista informa. Neste caso, o comentador criou a informação que ele próprio comentou. Acontece que um comentador não está sujeito nem aos critérios deontológicos de um jornalista, nem os factos que invoca são verificados e controlados pelos processos editoriais do jornalismo. Antes de uma televisão ou um jornal divulgarem certos factos eles são, em princípio, verificados, nomeadamente controlando e averiguando da credibilidade das fontes que estão na sua origem. Alguém na redação daquela televisão controlou a tal fonte amiga que o militar invocava? Alguém verificou se outras fontes confirmavam ou davam credibilidade a essa informação? Seguramente que não. E, no entanto, tivemos essa alegada fonte a servir de base à divulgação por um comentador de uma alegada notícia que depois ele próprio comentou.

Em graus diferentes assistimos ao desaparecimento da diferença entre informar e comentar, com os comentadores a anunciar factos em vez de simplesmente os comentar. O desaparecimento desta diferença aproxima os espaços informativos e de comentário das redes sociais.

Não se trata, tão pouco, de um problema que tenha surgido com a guerra na Ucrânia ou que se limite ao papel dos comentadores (eu incluído). O próprio jornalismo tem infetado o tratamento e verificação dos factos por uma lógica de entretenimento perigosa. Isso é particularmente visível no tratado das fontes e do off the record (o uso de fontes anónimas). O uso de fontes não identificadas é legitimo, mas está sujeito a exigências particulares (na medida em que o anonimato pode permitir a uma fonte mais facilmente faltar à verdade ou manipular os factos). Em princípio o anonimato só deve ser permitido quando a natureza da informação o justificar (nomeadamente pelo risco em que pode incorrer a fonte). Hoje, o uso de fontes anónimas está muito para lá disso. Na informação política, em particular, usa-se e abusa-se do off the record. Não é inusual os políticos usarem o anonimato para transmitir recados a outros políticos ou testarem a reação pública a certas ideias sem serem responsabilizados por elas. E, infelizmente, é mais comum do que devia que o que uma fonte diz não seja verificado junto de outra fonte independente. Basta ler com atenção alguns artigos para perceber que revelam informação que não é suscetível de confirmação independente.

Na bolha política e mediática sabe-se até muitas vezes qual é o político que é a fonte de um jornalista num determinado tema. Mas os leitores não sabem. Os jornalistas aceitam isto (ou não têm alternativa a o aceitar) pois é dessa forma que conseguem as notícias e manchetes que atraem leitores.

Isto cria uma lógica transacional perigosa entre políticos e jornalistas. Os jornalistas dependem dessas fontes para apresentarem novidades ou alimentarem controvérsias, mas com essa dependência aumentam os riscos de serem manipulados. É verdade que a natureza do jornalismo político criará sempre uma proximidade entre políticos e jornalistas que comporta riscos. Mas esta proximidade é hoje, algumas vezes, excessiva e a também excessiva dependência do jornalismo dessas fontes promove a lógica transacional de uma forma ainda mais perigosa. Um bom teste desta dependência é pensar quantas vezes já vimos notícias sustentadas em fontes anónimas desmentidas sem que me recorde de um caso que seja em que a fonte que enganou o jornalista tenha sido divulgada (como impõem os critérios deontológicos). Nem sempre quando uma fonte é desmentida ela terá mentido, mas outras vezes isso é o caso. A sua não revelação é um forte indício de excessiva dependência que deveria ser objeto de uma profunda reflexão pelo nosso jornalismo.

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