O que é que vamos recusar à América?

O embaixador dos Estados Unidos da América em Portugal, numa entrevista ao jornal "Expresso", prometeu sanções ao nosso país se o governo aceitar que a empresa chinesa Huawei faça distribuição de sinal rádio da futura rede 5G.

O senhor George Glass também não gosta que a construtora Mota-Engil tenha vendido parte do seu capital a uma empresa chinesa. E, igualmente, ameaça com sanções.

Ao diplomata nomeado por Donald Trump desagrada, ainda, que a China Three Gorges detenha 21% da EDP.

E se, por acaso, for uma empresa chinesa a construir um terminal no porto de Sines para distribuição de gás natural liquefeito, o senhor embaixador promete, novamente, sombrias, não explicadas e hipotéticas sanções a Portugal.

Esta série de ameaças ao nosso país levou o ministro Augusto Santos Silva a dizer que "em Portugal quem toma as decisões são as autoridades portuguesas".

Esta frase, à primeira, até soa bem a ouvidos patriotas mas, atenção, logo a seguir o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros pronunciou uma oração onde reza que as decisões tomadas em Portugal "estão de acordo com os interesses nacionais de Portugal, de acordo com o processo de concertação a nível da União Europeia, quando esse processo é pertinente, e com o sistema de alianças em que Portugal se integra, que é bem conhecido e está muito estabilizado".

Ou seja, o que Augusto Santos Silva diz com aquele arrazoado é que em Portugal mandam os portugueses, mas, pelo menos um bocadinho, também manda a União Europeia e, noutro bocadinho, também manda a NATO, pilares do tal sistema de alianças "conhecido" e "estabilizado" citado pelo chefe da diplomacia portuguesa.

Ora como na NATO manda os Estados Unidos da América uma simples lógica cartesiana infere que Augusto Santos Silva, no fundo, aceita que o embaixador norte-americano também manda um bocadinho em Portugal.

Este embaraço, esta atrapalhação entre a vontade de condenar as declarações de George Glass e a realidade triste da subserviência e da dependência do país a interesses estrangeiros acabou por ser reproduzida por vários colunistas e comentadores.

Por um lado, eles foram lestos a bater no peito o seu fervor patriótico e a rugir a sua indignação contra o embaixador norte-americano e, por outro lado, foram rumorejantes a cacarejar ao Governo para, em respeito pelos nossos aliados tradicionais, passar a olhar para a China com desconfiança e tirá-la dos grandes negócios do país - que é, exatamente, o que os Estados Unidos querem e, portanto, passada a sessão de hipocrisia, esquecida a ofensa nas brumas da memória, será aquilo que os Estados Unidos vão conseguir.

Por mim, ser verdadeiramente patriota era não aceitar que setores estratégicos da economia portuguesa estivessem em mãos estrangeiras, sejam elas chinesas, americanas, francesas, alemãs, inglesas ou de outro país qualquer.

O que era patriota era garantir, por exemplo, que as telecomunicações, a agricultura, a saúde, a banca, as infraestruturas ou a energia do país não dependessem excessivamente, direta ou indiretamente, de empresas estrangeiras. Mas os nossos governantes das últimas décadas, na sua patriótica independência, decidiram exatamente o contrário.

Enfim, nada há mais deprimente na política do que leoninos patriotas de peito cheio com coração de galinha.

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