O que pode Sánchez fazer com esta vitória?

Só nas representações mais simplistas, as tensões políticas contemporâneas em muitos países do mundo aparecem como sendo binárias, entre uma direita conservadora e uma esquerda progressista. Em muitos contextos, o espaço das clivagens políticas é mais complexo, tornando-se tridimensional, tetradimensional, ou com mais ângulos ainda.

As quartas eleições espanholas em quatro anos demonstram essa pluridimensionalidade da política. E deixam claras a enorme volatilidade eleitoral, com grandes subidas e descidas de partidos em pouco tempo, uma resiliência que chegou a parecer estar em risco por parte dos dois partidos-pilares do regime democrático, e a afirmação de que não há no curto prazo perspetivas de governabilidade do país fora de um espaço político multipolar que nem PSOE nem PP parecem aceitar desde a erupção do nacionalismo catalão, que sendo pacífico é disruptivo.

Os partidos podem sempre tentar um quinto ato eleitoral e fragilizar ainda mais o sistema político, mas seria uma irresponsabilidade histórica, com paralelo único contemporâneo na Europa, talvez só na gestão britânica do Brexit.

Os dados estão claros. Os espanhóis estão fartos de chegar à mesma conclusão em eleições diferentes.

A partir das eleições deste domingo é tempo de opções. O PSOE pode com o PP fazer o grande entendimento dos partidos nacionais, mas correrá sérios riscos de confrontos internos nesse caminho, porque no seu seio há muito mais simpatia face às autonomias do que transpareceu nestes tempos em que era necessário seguir o líder para não ser culpabilizado por um mau resultado.

Chegou a hora de o PSOE voltar a ideias que já defendeu e abandonou por reflexo condicionado de cedência ao centralismo. O governo mais sólido que estas eleições espanholas podem produzir é um que dê passos para acabar com o tratamento judicial da divergência política, crie clima para a reconciliação e autonomia, que pode ser minoritário, mas capaz de dialogar com o complexo (estranho de entender para um português) progressista-nacionalista em várias regiões. Com o Podemos enfraquecido há uma nova oportunidade, desde que o ramo de oliveira seja estendido à Catalunha. E isso permitiria a Espanha libertar-se do regresso dos mitos franquistas.

O próximo governo espanhol pode finalmente aprender com a experiência portuguesa da legislatura anterior, escolher tópicos de entendimento preferencial e baixar a tensão nos assuntos que dividem as forças progressistas. É claro que será muito difícil porque Espanha não pode mais ignorar que há nacionalismos pacíficos para integrar democraticamente num país do século XXI, sob pena de, não o fazendo, se obrigar a confrontar-se agora com todos os traumas que evitou nas últimas quatro décadas.

Se Sánchez não perceber ainda desta vez que tem pela frente o desafio de construir uma solução de governo para o espaço tridimensional da política espanhola (direita vs. esquerda e Estado unitário versus federalismo) ou não tiver força para isso, terá um lugar na história, o dos homens que tornam problemas difíceis em crises profundas. E a história costuma ser severa com tais protagonistas

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