O que também está em causa nestas eleições

Há quem vote sempre no mesmo. Independentemente do líder, do histórico, do partido, das incoerências ou dos erros, há quem vote num símbolo, numa cor, numa ideologia, numa ideia preconcebida, por mais datada que esteja. Há também quem vote em pessoas. Porque são mais simpáticas, porque parecem gente séria ou porque têm graça. E há, depois, aqueles para quem o voto é uma decisão complexa. Muito complexa, às vezes. Para esses, a escolha do próximo domingo pode ser difícil.

Se pensarmos que o país vai "recrutar" 230 deputados de uma só vez, a quem será entregue a tarefa de governar Portugal, isso já é, por si só, uma tarefa hercúlea. Conhecer os candidatos, estudar-lhes o currículo e avaliar-lhes o caráter dá trabalho. Se acrescentarmos os programas eleitorais, que demoram tempo a ler - e, às vezes, são mesmo uma perda de tempo -, rapidamente percebemos que a cidadania, quando a queremos levar a sério, exige sacrifício.

As eleições, porém, são mais que isso. São também uma avaliação da coerência e do caráter político dos seus protagonistas. Da sua capacidade em assumir responsabilidades políticas, mesmo quando elas doem. E esta campanha dá-nos muito que pensar a esse nível.

Comecemos pelo caso de Tancos. Dois anos depois do assalto mais rocambolesco da história da democracia a umas instalações militares, a justiça - que tantos criticam - já investigou, já constituiu vários arguidos e já apresentou uma acusação. O Parlamento e o Governo não vislumbraram, até hoje, um único responsável político. Nem um para a amostra.

Azeredo Lopes, que nunca assumiu qualquer responsabilidade, contou com a cobertura do primeiro-ministro, que o aguentou em funções até ao limite da irracionalidade. Quando já não o podia segurar mais, ofereceu-lhe um louvor pelos serviços prestados.

O Parlamento fez uma Comissão de Inquérito para apurar responsabilidades políticas, mas também não encontrou nenhuma, graças a uma geringonça que, aparentemente, não foi útil apenas para aprovar orçamentos e devolver rendimentos. E é isso que tem deixado o Bloco de Esquerda e o PCP tão embaraçados com este caso.

Na última semana, António Costa teve uma nova oportunidade para emendar a mão. A acusação do Ministério Público podia ter servido para o primeiro-ministro traçar, finalmente, uma linha entre a amizade pessoal que possa ter com Azeredo Lopes e a responsabilidade política do ex-ministro. E para admitir o óbvio: o assalto a Tancos constitui uma machadada profunda na credibilidade do Estado e isso não pode passar incólume politicamente. Mas não. Ao contrário do que fez com José Sócrates - que também ainda não foi condenado por nada -, António Costa optou por se esgueirar entre os pingos da chuva e escudar-se no velhinho clichê: à justiça o que é da justiça, à política o que é da política. Como se Tancos não fosse também um gigante caso político.

Neste capítulo, porém, António Costa não está sozinho. Rui Rio, o homem que ia trazer a ética para a política, entendeu - e bem - que a acusação de Tancos lhe permitia exigir responsabilidades políticas ao primeiro-ministro. Rio só se esqueceu de que tem nas listas a estas eleições um candidato que está formalmente acusado pelo Ministério Público. Esqueceu-se de que, quando se critica os julgamentos de tabacaria, não se pode partir do pressuposto de que Azeredo Lopes é culpado, apenas para poder espetar a faca em António Costa. Esqueceu-se ainda de que, quando se reivindica para si uma ética política acima da média, tem de se ser consequente com um líder da bancada que utilizou assinaturas de deputados sem lhes pedir autorização.

Não há partidos nem políticos perfeitos. Todos têm telhados de vidro, todos têm uma história e um passado de que, provavelmente, não se orgulham. Os partidos - como qualquer organização - são feitos de pessoas e as pessoas erram. É também por isso que as lideranças são tão importantes. Porque decisões fáceis toda a gente toma. Mas são as difíceis que definem o caráter de um verdadeiro líder.

O que está em causa nestas eleições não é apenas a escolha de um programa ou dos nomes que se vão sentar no novo Parlamento, mas a escolha de líderes que tenham autoridade ética, moral e política para representar o Estado português. E quem quer um voto informado e ponderado tem também de ponderar isto. É por isso que a decisão é tão complexa.

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