O que vai para lá do dérbi

A pergunta que ainda pode sobrar é esta: depois de chegar, com toda a justiça, ao título de campeão nacional, que mais se pode esperar do Sporting? Eventualmente, um campeão invicto. É este o novo - e derradeiro - objetivo dos leões num campeonato que eles tornaram histórico. O recorde de 32 jogos imbatíveis já ninguém lhos tira, mas Ruben Amorim sonha com um pleno de 34. É também (ou sobretudo) por isto que o dérbi da Luz adquire uma dimensão diferente.

Aqui há umas semanas já era plausível que o Benfica - Sporting pouco ou nada tivesse a ver com a questão título. A equipa leonina confirmou a probabilidade e chega à Luz com um estatuto que não alcançava há 19 anos. Com o merecimento que ninguém de bom senso se atreve a questionar.

O Sporting foi claramente a equipa mais regular - e o campeonato releva todas as virtudes de um maratonista -, sabendo aproveitar aquilo que as circunstâncias lhe trouxeram de vantajoso, aliado às insuficiências que os diretos concorrentes (e alegados únicos candidatos) demonstraram possuir. Foi uma espécie de "tempestade perfeita" que, no caso dos leões, os levou para o paraíso pretendido.

Mas também com muita sabedoria. E, desculpem-me a insistência, mas este título tem muito - mas mesmo muito - de Ruben Amorim. É certo que Frederico Varandas apostou as fichas todas no jovem técnico (e tem inegável mérito por isso, depois de vários falhanços num curto espaço de tempo), como também não se pode ignorar o papel de Hugo Viana neste processo. Só que tudo isto de pouco valeria sem a competência e inteligência de Amorim.

Saber escolher é uma arte ao alcance poucos, Ora, desta vez, as contratações do Sporting foram de tal modo eficazes que devem servir de lição àqueles que julgam que rios de dinheiro são a solução milagrosa para a construção de um plantel que funcione. Aliás, exemplos de plantéis caríssimos que não conseguem originar uma equipa com cabeça, tronco e membros é coisa que não falta por esse mundo fora.

Ir buscar Pedro Gonçalves, Nuno Santos e Palhinha significa que houve uma ideia sustentada: saber quem se quer e para quê. O mesmo é válido para Porro. Depois, a experiência de quem pode constituir-se em mais-valia: Adán, o enorme Coates e João Mário.

Finalmente, o viveiro de Alcochete, com Nuno Mendes à cabeça, e todos os outros, de Jovane a Gonçalo Inácio, recuperando aquilo que de melhor o Sporting tem para oferecer. Hoje e no futuro, obviamente.

Ruben Amorim pegou em todos aqueles ingredientes e tratou do resto. Nomeadamente de uma notável gestão de recursos humanos, a par de uma estabilidade emocional que foi determinante para um percurso vitorioso. Obra dele, evidentemente.

Bem, mas isto ainda não terminou. Pelo menos, a avaliar pelas palavras do treinador após a conquista do título, passar mais dois obstáculos sem derrotas seria a cereja em cima do bolo. E é aqui que surge o dérbi.

Um Benfica - Sporting, seja em que cenário for, é um dos tais desafios em que cada uma das partes quer vencer. Interessa pouco, neste momento, que os leões já sejam campeões, ou que as águias pensem vagamente na possibilidade de assegurar o segundo posto. É um dérbi e um dérbi é sempre um jogo de afirmação, logo, de desfecho imprevisível.

Seja como for, aquelas duas premissas vão estar na mente dos contendores. Para Amorim triunfo ou empate encaixam nas pretensões, para Jesus tudo o que não seja somar três pontos é péssimo. É uma questão de honra, digamos assim, o Benfica manter-se na discussão da entrada direta na Champions até ao último sopro, mesmo que a probabilidade seja (realisticamente) mínima.

O problema dos benfiquistas é que a diferença pontual para o FC Porto os deixa dependentes do que os dragões fizerem em Vila do Conde. É verdade que o Rio Ave está numa situação embaraçosa, pois nada tem garantido quanto à permanência, algo que, reconheçamos, tem sido pouco habitual nos últimos anos. Mas é a realidade desta época e, por certo, vai tentar a sua sorte procurando pontuar para continuar a aguentar o barco.

Simplesmente, o FC Porto, depois de ver o título desportivo fugir, sabe que tem na mão a hipótese do - vamos chamar-lhe assim - "outro" título financeiro. Quer dizer, juntar-se de imediato ao Sporting na Liga milionária, uma compensação que não tem nada de irrelevante no atual contexto do futebol.

Logo, Sérgio Conceição vai ao Estádio dos Arcos com a intenção de acabar de vez com as dúvidas que ainda possam existir sobre esta matéria. É ganhar e o caso está encerrado. Entendendo o espírito que vigora no Dragão, surpresa será se não o conseguir.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de