O sonho dentro do sonho

Sim, a vida continua, mas ninguém como Maradona mostrou que sem identificação com o povo o futebol é apenas uma caricatura.

1 - Há quem diga que o futebol não teria existido sem Di Stéfano, Pelé e Maradona. Descontando o eventual exagero, penso que já será plausível dizer que a História do futebol poderia começar por eles. São três nomes que tornaram o futebol em algo que saltou a barreira do simples desporto para se transformar numa arte tão respeitável como outras.

Acontece que nunca vi jogar Di Stéfano e, ainda miúdo, apanhei Pelé na ponta final da carreira, liderando aquela seleção fabulosa que conquistou o tri no Mundial de 1970. Já com Maradona foi diferente. "Caiu" em cima da minha geração. E ninguém para lá dele - ninguém mesmo - me demonstrou que a paixão pelo futebol pode ser sinónimo de celebração.

"Quando as pessoas passavam fome, ele dava-lhes alegrias", afirmava um anónimo durante a homenagem a Maradona em Buenos Aires. É este o ponto. Dieguito identificava-se com os seus fãs (ia a escrever devotos...) e sentia-se feliz a fazê-los felizes. E da única forma que sabia, lá dentro no relvado, fazendo da bola um prolongamento dele próprio, levando atrás toda a equipa (como em Nápoles, como a Argentina em 86), mas também os milhões que acreditavam que o predestinado "deus do futebol" até o inatingível conseguia alcançar. E conseguia.

Maradona foi controverso, imprevisível, provocador, mas também de uma sinceridade desarmante. Bem sei que o jogador e o homem são o mesmo, simplesmente a herança que deixa no futebol suplanta tudo o resto. El Pibe era uma espécie de mistura entre Chaplin e Picasso mais uns pingos de Merlin. Com uma bola, claro.

Edgar Allen Poe interrogava-se no clássico "Dream within a dream" se "Tudo aquilo que vemos ou nos parece / Nada mais é do que um sonho dentro de um sonho". Neste caso, pensámos que sim, que era possível guardar a ideia de um futebol em estado puro, tão criativo quanto mágico. O sonho - ou lá o que foi - valeu a pena.

Obrigado Diego.

2 - Depois de uma longa paragem aí está o regresso do campeonato. Mais uma jornada em que as expetativas se centram na forma como Benfica, FC Porto e Braga vão lidar com mais uma ronda entre compromissos europeus - já se tornou rotineiro, mas assim continuará nas próximas semanas - e na capacidade do líder Sporting gerir a vantagem de que dispõe, numa rota afirmativa que o tem caracterizado.

Aliás, começando exatamente por aqui, os leões jogam em casa frente ao Moreirense e surgem, no plano teórico, pelo menos, com alguma vantagem para consolidarem o primeiro lugar. Se o fundamental da dinâmica e da consistência que têm demonstrado se mantiver, a probabilidade de somar mais três pontos é elevada. E, depois, esperar para ver como reage a concorrência.

Atendendo a que o Braga recebe o Farense, logo a seguir ao balanço ganho na partida com o Leicester, dir-se-ia que a maior curiosidade reside no modo como vão atuar Benfica e FC Porto que se deslocam às ilhas. Quer dizer, ambos jogam fora. Claro que partem como favoritos, tanto com Marítimo como com Santa Clara, mas é necessário confirmá-lo no terreno, o que, mesmo sendo plausível, pode não ser simples.

Uma vez mais, as opções de Sérgio Conceição e Jorge Jesus vão pesar no caminho a trilhar. As escolhas dos dois técnicos têm estado condicionadas por vários impedimentos - lesões, castigos, covid-19 -, só que as alternativas nos plantéis não são assim tão poucas, nem tão irrelevantes, que impeçam a construção de onzes capazes de enfrentar as exigências.

Só que há outro dado adicional a juntar a esta equação. Recorde-se que tanto FC Porto, na Liga dos Campeões, como Benfica, na Liga Europa, têm na próxima semana a possibilidade de garantirem já a qualificação para a fase seguinte nas respetivas competições da UEFA, algo que constitui igualmente um objetivo de época.

Claro que tanto Jesus como Conceição vão sempre dizer que o importante é o próximo jogo - e é, se pensarmos que será um risco perderem mais terreno no campeonato do que aquele que já perderam -, simplesmente também têm de acautelar as partidas com Poznan e City por uma razão simples: quanto mais rapidamente resolverem o plano europeu, mais depressa podem focar-se em exclusivo no plano interno.

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