O terceiro período chumbou no exame

Podemos tentar ver o copo meio cheio, louvar o esforço de escolas e professores na adaptação ao ensino à distância, reconhecer o empenho de autarquias que ofereceram equipamento informático, vislumbrar algum avanço na procura de métodos alternativos de aprendizagem e de avaliação. Uma leitura honesta do que foi o terceiro período deste ano letivo obriga, contudo, a reconhecer que a experiência foi dolorosa para as famílias e de resultados bastante duvidosos para uma larga maioria dos alunos.

Nada substitui o ensino presencial e a primeira boa notícia, nos anúncios de ontem em relação ao próximo ano escolar, é António Costa e Tiago Brandão Rodrigues reconhecerem isso mesmo. É essencial que todo o esforço do Ministério da Educação e das escolas seja direcionado para a preparação de um ano de interação e presença, porque já temos estudos e avaliações suficientes para confirmarmos o que se adivinhava à partida.

Sentiram-se dificuldades de contacto dos professores com os alunos, havendo agrupamentos com elevadas taxas de estudantes sem qualquer contacto e casos em que este se limitou ao envio de trabalhos por correio. Houve disparidades nos métodos de avaliação, com um terço dos professores a manter testes, enquanto a maioria preferiu outros critérios. E houve, sobretudo, um agravamento das desigualdades, não apenas por culpa da tecnologia, mas sobretudo porque os contextos familiares são determinantes. Já o são habitualmente, mas mais ainda numa situação de crise e quando se exige um envolvimento acrescido dos pais.

As estruturas representativas do setor sinalizam o profundo desgaste de professores e alunos e a forma como se tornou cada vez mais difícil mantê-los ligados à medida que o tempo ia passando, com Filinto Lima, presidente da Associação de Diretores, a admitir que "a escola deixou de cumprir a sua missão de elevador social".

O primeiro-ministro explica que, como não poderia deixar de ser, o Governo está a trabalhar em diferentes cenários, e tenta passar a imagem de que se for necessário voltar ao ensino à distância já teremos vantagem graças ao "treino" destes meses, mas é ele próprio a admitir que sobram "défices de aprendizagem" como herança desta experiência.

A recuperação apontada para as cinco primeiras semanas do próximo ano é uma garantia importante, mas restam muitas questões em aberto. Desde logo, de que forma será reajustado o calendário escolar, para que não se comprometa o próximo ano com a recuperação deste. Por outro lado, sendo os manuais devolvidos às escolas a partir da próxima semana, é importante que sejam pensados os recursos necessários para este tempo de recuperação. É certo que os manuais são uma ferramenta entre muitas, mas têm sido a principal base de ensino. Igualmente importantes na organização e preparação das escolas são procedimentos como a colocação de professores, que deverá ser feita o mais cedo possível.

Mais decisiva ainda será a capacidade de as escolas oferecerem, neste objetivo de recuperação, respostas diferenciadas e personalizadas. A realidade é muito diferente de agrupamento para agrupamento e, dentro de uma mesma escola, de aluno para aluno. O impacto desigual que o ensino à distância teve só poderá ser atenuado com o reforço de tutorias e outros mecanismos de apoio. Ou seja, com mais professores e técnicos especializados no terreno. É de pessoas, uma vez mais, que precisamos para recuperar o tempo perdido.

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