O último fôlego

O diabo, às vezes, regressa nos detalhes. Não com a força e a violência da previsão atribuída a Pedro Passos Coelho, mas nos momentos inesperados, fazendo do granizo bolas de neve.

O pormenor que evita a tentação tem na base o aumento brutal do preço dos combustíveis, que acordou o país para culpar governantes e acólitos. E é nestes momentos que a transição energética dá lugar aos espasmos de famílias e empresas dependentes dos combustíveis fósseis. Ninguém deseja comprar essa guerra nas ruas.

António Costa não quer vender a alma de um Orçamento do Estado que, não tendo rasgos, cumpre as funções de alguma devolução de rendimentos às famílias, com pequenos apoios para que a economia comece a reanimar, mantendo sobretudo a narrativa das contas certas de bom aluno perante Bruxelas. Os moderados agradecem.

Não quer, mas também não pode, abrir uma crise política num momento em que leva com o clamor do país, apesar de o principal partido da Oposição, em plena disputa interna, estar a atravessar o pior momento para ir a eleições. Lá está, o diabo nos detalhes.

E falta-lhe a arma de arremesso do Plano de Recuperação e Resiliência, a economia a crescer acima dos 5% e o desemprego reduzido a pó.

Se este Orçamento passar, com todas as pressões públicas e privadas, poderá ser o último de encontro de contas à Esquerda. Havendo eleições agora, são Bloco e PCP quem se sujeita a perder deputados, embora também eles sejam atraídos pela tentação de evitar que o partido da "geringonça" não escrita com maior representação parlamentar tenha tempo para executar os milhões de Bruxelas. Se resistirem agora, não resistem para o ano.

Seja como for, a próxima palavra é de Marcelo Rebelo de Sousa. E depois dos portugueses.

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