O voto, essa arma silenciosa

Nós, os eleitores, os que escolhemos votar, quando riscamos com a caneta um quadrado no boletim de voto, fazemo-lo por várias razões. Por ideologia, por afinidade, por instinto, porque queremos estar do lado quem ganha. Mas também votámos com a carteira, com medo e, às vezes por vingança, irritação, fastio ou revolta.

Não há uma única e simples explicação para o porquê de cada voto, em cada momento, sobretudo naquilo a que se convencionou chamar o "eleitorado flutuante" que é, no fundo, quem decide cada eleição.

Na suprema liberdade e solidão da cabine de voto, cada um de nós, e das nossas circunstâncias, faz uma escolha. Individual. No fim do dia, quando se fazem as contas, a maioria ganha. E nem sempre ganha aquele em quem votámos. A democracia é "o pior de todos os sistemas, à exceção de todos os outros". A cada pessoa corresponde um voto, a soberania é do povo e o povo "tem sempre" razão nas escolhas que faz. Mas, mais do que isso, importa perceber o porquê de determinadas opções.

Mais uma vez, a "explicação" não é simples, linear e única. Da Polónia, da Hungria, da Suécia e, agora, de Itália, chegam sinais semelhantes. Um padrão. Estará a maioria do povo destes países, toda enganada, iludida ou errada? Ou, pelo contrário, o voto individual e livre dentro da cabine é uma chamada de atenção, um grito de revolta, uma vontade de vingança, um gesto de indiferença ou um desejo governa de esperança?

Talvez seja tudo isso, em doses diferentes.

O fim da mediação clássica, a ligação direta entre eleitores e eleitos, o individualismo no lugar da preocupação com o coletivo, o poder facilitista e acrítico das redes sociais, a impreparação dos políticos, o desfasamento entre a realidade do dia a dia e os discursos eloquentes, as promessas que não se cumprem, a perda do poder de compra, os salários estagnados, a sensação de impunidade, a perda de confiança nos governantes e a ideia de que "eles são todos iguais" são a ignição para populismos, radicalismos e extremismos.

"Se não construirmos a democracia todos os dias, estamos a destruir a democracia todos os dias." A frase, de Marcelo Rebelo de Sousa, sexta-feira, no discurso dos 200 anos da Constituição de 1822, é um aviso sério, mas sereno, ao que pode estar para vir. Uma classe política que não dá respostas aos anseios da população, que governa a pensar em eleições e não em gerações, que se limita a "gerir" o país em vez de o reformar, fazer crescer e avançar, leva, inevitavelmente, ao desânimo, a descrença e ao encolher de ombros.

E, depois, temos a União Europeia. Nas duas faces da mesma moeda, há o lado "bom", de sentimento de proteção, de cooperação, de solidariedade e de financiamento. E, do outro lado, o distanciamento dos cidadãos, a burocracia, os interesses dos grandes países em detrimento dos pequenos, a simplificação de normas e leis que, muitas vezes, não levam em conta a especificidade de cada país e, claro, a primazia da economia sobre a política. A União começou por ser económica e é nessas águas que melhor se move. "É a economia, estúpido." Mas se a economia não for social, se não tiver impacto real na vida dos cidadãos, se os salários não crescerem, se as condições de vida não melhorarem, se os cuidados de saúde forem lentos, se a educação estiver desajustada, a justiça lenta e a segurança social pobre... No momento do voto, na tal cabine de solidão e liberdade, os cidadãos vão escutar quem lhes deu esperança. Ou quem lhes disse para se revoltarem.

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